Conversa na Travessa

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Rematar pontas pendentes. Episódio 3: This is the end, beautiful friend [tamanho XXXL, que sou menina para ocupar muito espaco]

Dói libertar-te
Mas tu nunca me seguirás


[Referencia: The Doors, traídos em Portugues por Maria_das_Flores]


© Herbert List/Magnum Photos

Foi há cerca de 2 meses que um dos meus múltiplos pendentes me fez temer que fosse aquela a vez mais próxima do fim [referencia: o (agora) soporífico Luís Represas]. Fim do blog, deste blog, ou da minha participacao neste blog - sossegai, meus amigos! Nesse dia, tinha-me passado pela cabeca relacionar a ‘polémica Vettriano’ com a ‘polémica máquinas dos parques de estacionamento de Cambridge, U.K.’, entitulando esse surreal trabalho de relacionar alhos com bogalhos - embora nao os misturando, shaken but not stirred style [ref.: James Bond] – de ‘Saber Perder Tempo’. Explico primeiro muito rapidamente que polémicas eram essas e depois a referencia ao Represas (valhamedeus).

Polémica Vettriano – o ex-mineiro Jack Vettriano, actualmente o autor da tela mais reproduzida no mundo (The Singing Butler), admite que se inspirou num manual baratucho para artistas. Os snobs das artes pictóricas caem-lhe logo em cima dizendo que ele nao é um verdadeiro artista, etc. Perdendo tempo, no fundo, porque qualquer analfabeto artístico se apercebe que o Sr. Vettriano dá uma emocao ‘as personagens que pinta – as tais que foram baseadas em imagens de um manual – que só um verdadeiro artista consegue dar.

Polémica máquinas dos parques de estacionamento de Cambridge, U.K. – nessa mesma semana, leio no Cambridge Weekly News que os Cambridgeanos estavam indignados por terem uma voz americana a falar nas máquinas dos parques de estacionamento (máquinas produzidas por uma companhia japonesa, originalmente destinadas ao mercado americano). A Camara Municipal entra em accao e muda as máquinas todas, para que estas tenham um sotaque ‘local’, processo esse moroso e dispendioso. Dizia um tipo da Camara Municipal: «É um pequeno passo para os parques de estacionamento de Cambridge, mas um grande salto para o património Ingles.» Admitia que nao era o maior problema que a cidade enfrentava, mas que gostavam de resolver questoes (polémicas) e que agora ‘we will move on’. Definitivamente, estes tipos sabem perder tempo.

Referencia a, valhamedeus, Luís Represas – Bom, tinha eu chegado ao blogger com esta bela intencao de falar sobre o saber perder tempo, e eis que uma astenia profunda e acumulada se me abate, impossibilitando-me de shake but not stir alhos e bugalhos de forma fluida e, ja agora rápida, como talvez tivesse sido costume em épocas mais áureas. E penso: ‘Isto bem que podia ser o meu derradeiro post na Travessa. Até já tenho o título!’ (custa-me sempre tanto desencantar títulos). Mas a minha prostração física e moral [ref.: dicionário electrónico Priberam] deixou-me apenas copiar-colar parte de um artigo sobre a ‘polémica Vettriano’ e largar impunemente o título ‘Saber Perder Tempo’ no ciberespaço.

O blog foi sempre um rim sintético para mim – o terceiro rim-, uma prótese de um órgao excretor, mas, vá, também um órgao de comunicacao (o que nao é mutuamente exclusivo). Tudo (exagero literário) o que os meus rins originais (organicos) nao excretavam, era excretado pelo terceiro rim, o que era muitas vezes um alívio bastante libertador. Esta minha existencia de cyborg blogueiro– fusao de animal com máquina bloguística [referencia de base: Donna Haraway, Simians, Cyborgs, and Women] foi, grosso modo, feliz, enquanto o terceiro rim funcionou. Mas chegou-se ao ponto da insuficiencia renal with no return – e já largo a metáfora organico-cibernética, para meu e vosso descanso espiritual.

Um cyborg é projectado de forma a adicionar ‘capacidades’ a um organismo ou a melhorá-las, usando tecnologia (de informacao, por exemplo). Ora, em acreditando na Donna Haraway, com as ferramentas certas, todos nós podemos ser reconstruídos, porque somos cyborgs. Acho um exagero dizer que me estou a reconstruir ao deixar de blogar – ao amputar o terceiro rim -, mas até acredito que eu seja um cyborg e que nunca o deixe de ser. Nem de propósito, na semana passada li um artigo no The Guardian (07/12/2005) que me relembrou disso mesmo: “In the contemporary postmodern vortex of techno-cultural mutation, technology is no longer defined in opposition to the human. Mobile technologies bring us ever closer to a cyborg existence.” (Dholakia & Zwick, profes de marketing, citados por Stuart Jeffries, a propósito da subcultura de se usar o telemóvel enquanto se está na casa-de-banho). É claro que ainda este fim-de-semana tive um tique de cyborg blogger típico : «Isto dava um post», pensei eu quando me deparei pela primeira vez com um baixo-relevo de um poema de Calverley (Ode to Tobacco ) apenso a uma parede por onde passo quase todos os dias há 6 intermitentes anos.

Nao obstante, e ao fim de 2 anos, 3 meses e 7 dias, exactamente, ‘desligo’ o terceiro rim. ('amputar' tem um bocado de mau vibe)

- E nao agradeces aos senhores, Maria_das_Flores? Despede-te dos senhores, vá.

Ás comadres (perdao pelo acentuacao manca), á ‘família’, á vizinhanca lincada, á vizinhanca deslincada, á vizinhanca que lincou, á vizinhanca que deslincou, aos que passaram e voltaram, aos que passaram e nao voltaram, aos que comentaram via ‘coscuvilhices’, aos que comentaram via ‘outros meios’, aos que enviaram spam (humorístico), aos que se queixaram via email da falta de referencia de algumas das imagens aqui postadas no início do blog quando eu ainda nao sabia fazer links (verídico) nem outras brincadeiras de html (nao se respira nesta frase), aos meus amigos mais ou menos cibernéticos ou mais ou menos organicos, ao Don William Shatner, ao Darwin, ao Tim Berners-Lee e, finalmente – embora tenha a sensacao de me ter esquecido de algo importante, as always, que nao tenho jeito nenhum para discursos a la Oscars, nem para epitáfios - ao ‘Moe’ da minha turma do ciclo preparatório, o rei da retórica física bruta (e.g. «Só nao te parto os dentes todos porque és uma gaja!», por me ter deixado chegar ‘a idade adulta com alguma retórica verbal. Agradecida, despeco-me com amizade [Ref.: Eng. Sousa Veloso, TV Rural, referencia facilmente identificável pelos membros da Geracao Vasco Granja - teste ‘What Generation do You Belong To’ non-powered by Quizilla]

Também está sólinho aqui. Também tirei os naperons da gaveta. Deixo o condominio com as maos nos bolsos, 'a procura das chaves, da conta do merceeiro e da última paranomásia parvinha. Olho para trás com mellon collie, mas aliviada.

[E agora, no original, em itálico, o óbvio:]

It hurts to set you free
But you'll never follow me

This is the end.


[Maria_das_Flores has amputated the third kidney. Perdao, ja chega de metáforas Harawayanas. Maria_das_Flores has left the building. Assim é que é.]

0 Coscuvilhices:

Enviar um comentário

<< Home