Conversa na Travessa

sexta-feira, abril 30, 2004

Da arte de bem insultar em toda a sela: um rascunho

Nem toda a gente pode ser artista, mas, com esforco, quem sabe...

A proposito deste belo poema:

Poetry?

Há por aí quem se queixe
Que no Pastilhas não há originalidade
Ignaros comentários, pífia verdade
Certo certo...verdade há só uma:
Quem se queixa foi quem largou a ameixa

Antes citar quem da poda sabe
Que juntar palavras ao acaso
Certamente não pensa assim
E, de facto, é o caso
Do ignóbil invasor
Que por estas bandas
Nos tem largado o seu fedor

>> hp, 2004-04-30 (13:09)

Ignaro, pífio e ignóbil sao exemplos de polvora vocabular que um artista do insulto pode utilizar num duelo entre cavalheiros. "O próprio Charpentier [criador do hino da Eurovisao] viria a afirmar, com grande lucidez, que era considerado "bom entre os bons e IGNARO entre os ignaros!"

Ja' Camilo Castelo Branco dispara belos epítetos ao critico Silva Pinto, tais como "pífio e latrinario jornaleiro" e "mariolas". Entre a verborreia de epitetos utilizados por Camilo Polemico, encontram-se tambem estes: bonifrate, branco, lapúrdio, brutamontes, vilanaz, lorpa, jagodes, lazudo, parrana, camueca, falsário, alimária, pascácio, basbaque, rnostrengo, dromedário, sicário, incendiário, sandeu, zote, rábula, homúnculo, idiota, bisbórrias, macho de más manhas.

Verdadeiros herdeiros da tradicao camiliana de bem insultar sao estes nossos amigos do Nao Perdes Pela Demora!, verdadeiros gentlemen! O Miguel Esteves Cardoso tambem publicou um bom receituario da arte de insultar, em tempos.

Existe tambem uma versao mais rockabilly-anos 80 de insultar, mas tem de ser cantada e com popas e muito gel no cabelo:

"(...)
És ignóbil
Não sei qual é que é o teu móbil
És um reciclado de Chernobil
És ignóbil" ("És cruel", Ena Pá 2000)

Portanto, meus senhores, se precisarem de um padrinho/madrinha para um duelo verborreico entre cavalheiros, contactem aqui a je!

quinta-feira, abril 29, 2004

Rasguei uma folha da sebenta e...ca' esta' ela!

Comadre Paula, nem tudo esta' perdido; ainda podemos ter esperança na "Humidade".



Por que e’ que os batoteiros nem sempre ganham? (chamemos batoteiros aos que enganam, que nao ajudam e/ou que desertam)

Charles Darwin defendia que uma determinada caracteristica passaria de geracao em geracao se tivesse vantagem evolutiva. – actualmente um principio basico na ciencia. Mas Darwin nunca conseguiu explicar, sem contradizer a sua “sanguinaria” teoria da sobrevivencia do mais apto, como e’ que os primeiros humanos conseguiam cooperar uns com os outros.
No inicio do mes corrente, salvo erro, uma equipa de matematicos apresentou uma solucao que podera’ resolver este problema . Do ponto de vista do seculo XXI, a cooperacao claramente deixa toda a gente a ganhar. Para um habitante das cavernas, no entanto, a escolha mais logica seria fazer batota (enganar). Considerem este dilema: se eu e os meus amigos cooperarmos para abater um mamute, teremos mais para comer. Mas se eu for recolectar enquanto eles caçam, terei um banquete de carne e de frutos silvestres – o que me da’ vantagem em relacao aos meus companheiros. De facto, o matematico de Princeton, John Nash [lembram-se da caricaturizacao canastrona que o Russel Crowe fez dele em "A Beautiful Mind"?], ganhou um premio Nobel por provar que, desde que os batoteiros consigam ver os beneficios de enganar, permanecerao batoteiros e podem viver na abundancia indefinidamente. No entanto, num dos numeros da revista Science deste mes [tomei conhecimento disto atraves da Newsweek de 19/04/2004; obrigada, TAP Air Portugal!], Martin Nowak e Drew Fudenberg, de Harvard, provaram que o “equilibrio de Nash” nem sempre se aplica.

Os batoteiros conseguem safar-se apenas em populacoes grandes, onde estao protegidos pelo anonimato. Numa pequena tribo, as pessoas mais frequentemente “pagam na mesma moeda” (tit for tat). Se alguem tiver feito batota numa certa ocasiao, eu farei batota agora e vice-versa. A inovacao de Nowak e Fudenberg foi provar matematicamente que numa sociedade onde se “pague na mesma moeda”, a cooperacao pode prevalecer. A partir da sua primeira interaccao, os “jogadores” tornam-se mais sensatos (wise), de tal forma que, da vez seguinte, interagem com pessoas em quem confiam. Esta situacao comeca a generalizar-se ate’ que, eventualmente, os que cooperam sobrevivem. [Isto fez-me lembrar a "saga" Small is Beautiful, Small is Possible:
Small Is Beautiful : Economics as if People Mattered , de E. F. Schumacher; Small is Possible, de George McRobie]

Este estudo pode ter alguma utilizacao pratica nas relacoes internacionais. Se a cooperacao pode evoluir entre pessoas, nao podera’ evoluir tambem entre nacoes? “Esta descoberta e’ muito optimista”, diz Nowak. Numa pequena comunidade de paises, basta um governo cooperativo para estabelecer uma paz duradoura. Pelo menos, essa e’ a teoria. MdF

Links relacionados:
- VOGEL, G. (2004). The Evolution of the Golden Rule. Science, 303 (5661): 1128-1131 (20 February 2004): “Humans and other primates have a keen sense of fairness and a tendency to cooperate, even when it does them no discernible good”
- SILK, J.B. et al. (2003). Social bonds of female baboons enhance infant survival. Science 302 (5648): 1231-1234 (14 November 2003): “Our results are consistent with the evidence that social support has beneficial effects on human health and well-being across the life span. For humans and other primates, sociality has adaptive value. “
- TAYLOR, P., DAY, T. (2004). Cooperate with thy neighbour? Nature 428: 611-612 (08/04/2004). "What gives cooperation an evolutionary edge? Two features of a population - spatial structure and finite size - are factors in the success of any strategy, although more subtle than we thought."
- BERGMAN, T.J. et al. (2003). Hierarchical classification by rank and kinship in baboons. Science 302 (5648): 1234-1236 (14 November 2003): “The selective pressures imposed by complex societies may therefore have favored cognitive skills that constitute an evolutionary precursor to some components of human cognition.”

quarta-feira, abril 28, 2004

Isto nao e' um post (II)



Passem isto 'a frente, porque isto nao e' um post, e' uma polaroid de uma mulher 'a beira de um ataque de nervos.
Hoje nao posto, porque: nao tenho tempo; ainda nao consegui estar 10 minutos seguidos sentada; estou com os bofes de fora (nunca percebi esta expressao); descobri que nao tenho dinheiro para mandar cantar um cego, nem para ir ao supermercado durante as proximas duas semanas; tenho uma cabeca de vento; tenho de encaixar uma festa de aniversario no meu schedule apertado; tenho de comprar uma prenda para uma pessoa que mal conheco e nao tenho dinheiro; tenho de ir buscar o meu cartao novo da universidade, senao nao me deixam entrar na biblioteca, nem trocar euros por libras sem pagar comissao; tenho de dar um valente puxao de orelhas ao meu irmao, via telemovel, e so' tenho 83 pences (vai ser um puxao rapido, mas doloroso); tenho de mandar um certo sujeito ir catar primatas (um que nao me deixa comer maltesers na sala dos computadores, o parvo!); nao vou ter tempo para jantar (nao faz mal, que nao tenho dinheiro); aqui acabou a Primavera, agora so' la' para Junho, quem sabe; tenho de acabar de tentar encontrar a agulha no palheiro dos dados de Agosto e Setembro, pelo menos; vai ser um ano curto; esta' a ser um ano longo; estou inquieta; hoje perdi temporariamente os lindinhos dos meus sapatos de flamenco quase brand new. So' maçadas, so' coisas que me ralam! Aqui estao eles, os lindinhos brand new, acabados de serem salvos das garras de invejosos malvados:
UNF! E' hoje que rebento com os tacos do chão do Lee Hall Room, das 7.30 'as 8.30 pm, com ou sem jantar. Vai saber bem. MdF

Verdades Absolut


Valborg, o fogo que afasta os espíritos maus.

Eram 4 destes faxavôr!!

terça-feira, abril 27, 2004

Breaking news: hoje sinto-me existencialista...ou sera' dispepsia?



"Atila Zoler, redactor do guia de restaurantes Zenith, desenvolveu, ao longo dos 24 anos de observacoes proporcionadas pela sua profissao, uma teoria literaria.
(...)
- Ja' pensou porque e' que tantos livros transbordam de nausea, de mal de vivre, porque sao os ambientes invariavelmente claustrofobicos e soturnos? Ora repare: a maioria dos livros sao escritos por individuos sedentarios, de meia-idade, com uma barriga a prosperar a olhos vistos.
- Esta' a esquecer-se de que agora as top models tambem escrevem.
- Atendendo aos jantares pesados que essa gente tem por habito ingerir, nada mais natural que a meio da noite as entranhas se revoltem e a indisposicao se instale. O problema e' que, tratando-se quase sempre de criaturas com uma infinita auto-comiseracao, confundem azia com angustia existencial e colicas com duvidas metafisicas.
Veja-se o caso paradigmatico da literatura prussiana... A mais lugubre e deprimente de quantas conheco. Que outra coisa se poderia esperar de um povo que ingere quantidades fabulosas de salsichas e couve fermentada em vinagre ao jantar? A angst prussiana e' um sub-produto da sauerkraut!
E quanta da ansiedade dos nossos poetas e prosadores nao e' atribuivel a umas iscas enroladas deglutidas irreflectidamente numa tasca a horas tardias?
- Bem, a sua argumentacao e' convincente. Mas agora diga-me... O que preconiza para salvar a literatura do naufragio num invio oceano de molho bechamel? Ou de ser tragada por um maelstrom de mayonnaise?
- Frugalidade, sais digestivos e passeios a pe' depois do jantar." (in A Pior Banda do Mundo, vol.3: As Ruinas de Babel, de Jose' Carlos Fernandes)

Engracado como costumo sentir a angustia existencial no estomago...
Hoje vou ser frugal e vou nadar. Be wise: Alkalize!
MdF

segunda-feira, abril 26, 2004

Onde é que estava no 25 de Abril de 1974??? Hein?

Eu tinha 4 meses e 12 dias. E segundo a minha mãe nesse dia íamos a caminho do médico. Depois com toda a confusão, decidiu arrepiar caminho e voltar para casa, ali na Rua da Imprensa Nacional. E não sei mais nada.
Faltam cerca de 20/30 anos, para que esta Revolução perca toda a sua cor, e não passe de mais um filme, imagem, música, poema,...
Porque a Revolução são as pessoas, os sentimentos, as emoções, ...
Ontem estive a ver um programa no canal 2, que, infelizmente, só comecei a ver a meio.
E juro que me pareceu que os portugueses de 74 a 76 andavam acordados, vivos e fervilhantes de ideias e iniciativas. Depois adormecemos. E andamos a dormir até hoje.
O único momento parecido ( e de muito longe) em que senti o povo português unido sinceramente por uma causa foi naquele ano ( sou péssima em datas) do Lusitânia Expresso, pela causa timorense. Chorámos quando o navio se aproximou da fronteira marítima, mas não a ultrapassou. Chorámos quando foram lançadas flores ao mar, porque não pudemos ir lá entregá-las pessoalmente.
Abril foi Revolução. Mas não deveria continuar a sê-lo?

domingo, abril 25, 2004

Desfolhar Abril



25/04/2004:
Primeira paragem. Local & hora: Portugal Street, 10.30 am. Accao: churrascar um frango e chouricos. No. de pessoas envolvidas: duas.
Segunda paragem. Local & hora: Jesus Green, 12:00 pm. Accao: piquenicar. No. de pessoas envolvidas: mais de duas, falando do que lhes apetecer, desfolhando Abril, habituadas a isso desde sempre, nao fossem elas filhas de Abril.
Mas antes disso: atravessar a cidadela, chegar a casa e marinar um frango. Local & hora: minha cozinha, daqui a meia hora. No. de individuos envolvidos: meio individuo, frango inteiro. MdF


Fotografia de Victor Valente, 25/04/1974

E Depois do Adeus
Cantado por: Paulo de Carvalho
Música: José Calvário
Letra: José Niza
www.songcontest.nl
(vencedora do festival da canção de 1974; senha de início da revolução de 25 de Abril de 1974)
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Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei

Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...


E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós

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sexta-feira, abril 23, 2004

Já repararam...

...há quantos anos o Prof. Karamba, vulgo o Fenómeno, tem 42 anos de experiência?
Ando intrigada!

A Tangerina

quinta-feira, abril 22, 2004

Injusticas


A proposito do jogo Coruna vs. Porto de ontem, que nao vi porque valores mais altos se a-levantaram (o diabo encarregou-se de manter-me o copo cheio toda noite, o malvado!), relatado e comentado pelo Bruno e frequentadores do seu blog, tenho a dizer o que ja' ai lhe tinha dito (por preguica de postar qualquer outra coisa, copio o comentario que fiz no blog do Bruno e colo-o aqui na Travessa):

Boys and their games...enfim..
Dar um pontape no adversario e ser expulso e' injusto? Injusto-injusto sabem o que e'? E' ser-se um excelente nadador, andar a papar uma data de medalhas (merecidas) e agora, ainda em convalescenca de um ombro aleijado, nao conseguir superar a marca para ir ao Jogos Olimpicos deste ano...por uns ridiculos 0.05 segundos! O lindinho do Mark Foster tem 33 anos e esta seria a ultima oportunidade de ir aos Olimpicos (nao o estou a ver aos 37 a ir la'..). A Gra-Bretanha ja' perdeu uma medalha, bem feita! Mas para o Mark, pa', e' chato. E para mim tambem, que o gosto de ver nos 50 metros livres... Coitado do Mark, pa', ter de ouvir comentarios como este:
National performance director Bill Sweetenham commented: "I feel sorry for Mark. It looks like the end of a career."
Por 0.05 segundos. Numa prova.

P.S. Quem sabe quem sao os nadadores tugas que vao a Atenas este ano?

"Quanto mais conheço os Homens, mais gosto dos Animais."

Alguém, que agora não me apetece ir saber quem, disse isto. E esse alguém lá havia de ter motivos para o dizer. E hoje de manhã, ao tomar banho, esta frase bateu delicadamente à porta e perguntou se podia entrar. Eu respondi que sim. E ela entrou. Entrou mas abusou da hospitalidade, porque tem vindo a ribombar infindavelmente na minha cabeça, tal visita que parte tudo lá em casa.
Acho que ando cansada da Humanidade. Não. Talvez não seja isso. Acho que ando exausta de ler, ver e ouvir falar de Homens que não respeitam a Vida alheia e a sua própria. Acho que ando cansada de ouvir discursos em que se desvaloriza esta coisa fantástica que é viver. Estou farta das palavras ódio, vingança, banho de sangue, ...
Onde andam as pessoas que olham para nós como pessoas?...
Pensando bem, acho que deveria era preocupar-me no dia em que as notícias fossem acerca desses extraordinários seres humanos. É que notícia é o homem que mordeu o cão...
Se alguém tiver uma ilha deserta que não precise...só por uma temporada...prometo que devolvo inteirinha...

terça-feira, abril 20, 2004

O ultimo silencio



Housemate:- You are always listening to the music, aren't you? Why is that?
Mary Flower: - I cannot stand the silence.
Housemate: - That's very philosophical, Mary Flower...
Mary Flower: - I think it's physiological.

Nos idos de 2003, mais concretamente em 31/10/2003 e 12/11/2003 , pus-me a dissertar sobre esta minha inquietacao em relacao ao silencio, em particular sobre as possiveis razoes fisiologico-psiquico-socio-evolutivas da universalidade da musica (isto e', o facto de a musica se encontrar em todas as culturas humanas). A musica como combate 'a angustia provocada pelo silencio?
Por que nos angustia o silencio? My dearest housemate N., tens razao, tambem e' muito filosofico. Novamente, retiro as palavras do que agora considero o meu tratado de filosofia em BD de cabeceira, "A Pior Banda do Mundo" (vol.2) - "O Museu Nacional do Acessorio e do Irrelevante", de Jose' Carlos Fernandes:

"9. A Ultima Palavra
Dimitri Sikorsky nunca compreendeu porque se fecham as pessoas dentro dos carros, durante horas a fio, com a radio a balbuciar inanidades a um volume absurdo.
Nem porque estao as televisoes ligadas 24 horas por dia:
- Uma cloaca de histeria e vulgaridade!
Nem porque ha' musica em todos os lugares e circunstancias, embore ninguem a escute:
- A distraccao e' a grande força dissolvente do nosso tempo.
Ou porque tagarelam as pessoas sem cessar:
- Parece que vem ai mais chuva.
- Este ano nao ha' Verao.
- E' uma vergonha.
- Nao me Lembro de alguma vez ter chovido assim em Abril.
Porque se comprazem em narrar detalhadamente os mais infimos e irrelevantes acontecimentos:
- Foi na Avenida Oppenheimer, em frente aos Armazens Zlot...Veio uma rajada e virou-me o guarda-chuva ao contrario.
Porque se repetem vezes sem conta os mesmos argumentos:
- Parece que vem ai mais chuva.
- Nao me lembro de alguma vez ter chovido assim em Maio.
Porque insistem em dar a conhecer ao mundo os seus irrisorios pontos de vista:
- Ninguem me tira da cabeça que a culpa deste desconcerto e' desses discos voadores que andam por ai.
O que leva, afinal, as pessoas a procurarem estar imersas numa torrente ininterrupta de sons e palavras:
- Este ano nao temos Verao.
- A culpa e' do "El Niňo".
O passeio leva Sikorsky aos limites da cidade:
- Tudo isto nao e' mais do que uma tentativa de evitar que a morte tenha a ultima palavra. So' que 'a morte pouco lhe interessa a quem cabe a ultima palavra...Pois dela sera' sempre o ultimo silencio.
"

Abraços e orgasmos no feminino

Acabei de ler um artigo numa revista cientifica de medicina, onde segundo um estudo, conclui-se que muitas mulheres referem orgasmos quando o companheiro a abraça de uma determinada forma, não especificada no artigo.

Desculpem-me não colocar aqui a bibliografia, mas foi um artigo que li na biblioteca da faculdade de medicina de Lisboa...

A Tangerina
NOTA: uma ajuda para o post do Bruno

segunda-feira, abril 19, 2004

Elogio do mentiroso

Do volume 2 da BD "A Pior Banda do Mundo" - "O Museu Nacional do Acessorio e do Irrelevante", de Jose' Carlos Fernandes:

"8. A Mentira Compulsiva
Edmundo Stutz e' incapaz de relatar uma ocorrencia sem a distorcer.(...)
Nao o faz para tirar dai qualquer proveito pessoal. (...)
os factos que adultera sao anodinos e insignificantes, como anodinas e insignificantes sao as alteracoes que introduz. (...)
O habito esta' enraizado ha' tantos anos que ja' nem tem consciencia dele: tornou-se uma segunda natureza. (...)
As pessoas que lhe eram mais chegadas foram afanstando-se pouco a pouco, pois acham exasperante tentar manter um dialogo com alguem que mente sistematicamente. (...)
Embora "mentira" seja talvez uma palavra forte demais: o que Edmundo Stutz faz e' acrescentar ornamentos, carregar os contrastes... (...)
Retocar os cinzentos do quotidiano com as cores da ficcao. (...)
Introduzir relevo num existencia rotineira e sem sobressaltos. (...)
Teodoro Roszack e' dos poucos que ainda lhe dao alguma atencao:

- Os mentirosos sao os unicos que sao sinceros... O que acrescentam, omitem ou alteram acaba por revelar os seus sonhos e desejos mais intimos.
"

MdF - Eu e' que se calhar nao estou assim tao interessada em que me seja revelado o intimo de algumas pessoas!

P.S. Quem e' que "me" esgotou o vol. 1 d' "A Pior Banda do Mundo"? Dao-se alvissaras por um exemplar disto:

Apanho sempre o comboio atrasado!!

Ultimamente tem sido assim. Leio revistas de há semanas atrás. Apanho desenvolvimentos de notícias que já fizeram correr rios de tinta há atrasado, como se fossem fresquinhas da horta...e se fôr a pensar bem...afinal o que ando eu a fazer? Para onde vai o tempo e o que tenho eu feito com ele? Alguém sabe?

Nota: Maria. Telefonei-te na terça feira como combinado. O "gaitas" tocou, tocou, tocou, ...mais um comboio perdido!! Fica para a próxima?

sexta-feira, abril 16, 2004

Abril e' Arte Pop!


(Respectivamente: Abril e' (R)evolucao" in Vale de Almeida, 13.04.2004; Andy Warhol, Flowers IV e Marilyn)

Pelo que me tenho vindo a aperceber, o slogan escolhido para comemorar o 25 de Abril ("Abril é evolução") tem feito correr muita tinta. Nao me vou alongar sobre a semantica da coisa e o tom propagandista que o slogan e o programa de comemoracoes dos 30 anos do 25 de Abril claramente, parece-me, têm (alguem, me explica a frase "Abril e', sobretudo, evolucao"?). Para analises "serias", leiam jornais, vao a outros blogs, que eu ca' so' quero dizer uma ou outra coisa em relacao ao palavreado escolhido. Ja' sei que me vao dizer que o verbo da frase esta' no Presente do Indicativo, que Abril ate' pode ter sido Revolucao (Preterito Perfeito), mas que agora E' outra coisa. Discutivel, claro. Mas se queriam sublinhar a questao da transformacao, da mudanca, por que nao dizer, exactamente, "Abril e' transformacao", "Abril e' mudanca"? E' que assim da' mesmo a ideia que tiraram o "r" de revolucao so' para chatear. Ou porque têm medo da palavra da discordia. Mudemos os livros de Historia e falemos em Evolucao Industrial, entao! Mas eu nao me queria alongar em relacao ao palavreado, que a minha ideia era falar de imagem. Para nao evocar o Santo Nome de Darwin em vao.

Pequeno interregno imagetico-musical (originalmente emitido em Sous les paves, la plage, por TBR, a 09/04/2004)

"[ ]evolução de Abril [pub. institucional]

abril é evolução
bril é evolução
ril é evolução
il é evolução
l é evolução
é evolução
evolução
volução
olução
lução
ução
ção
ão
o
. "

Retomando a nossa emissao. Tenho a dizer que a publicidade aos 30 anos de Abril e', graficamente, um primor! O tipo de letra (a fonte) e' modernaça e vistosa. Os cravos têm umas cores contra-natura, mas muito agradaveis, muito Primavera-Verao 2004. Um mimo. Muito Arte Pop (da qual sou fã). E agora, um pouco de serviço publico (podem passar este paragrafo 'a frente, se nao estiverem virados para aulinhas de Arte Moderna/Contemporanea):

A Arte Pop surgiu em meados dos anos 1950, nos E.U.A e em Inglaterra, em parte como reaccao ‘a retorica que rodeava o Expressionismo Abstracto (1945; os expressionistas abstractos davam muita importancia as suas emocoes e tentavam exprimir o seu intimo na arte de uma forma que consideravam espontanea). Esta corrente artistica nao tinha objectivos esteticos ou sociais profundos. Trata-se de arte “descomplicada”, simples, facilmente compreendida. Reflecte o modo de vida que emergiu de uma economia do pos-guerra, de abundancia, de bens baratos e omnipresentes, das bandas desenhadas, dos filmes, do entretenimento televisivo e da publicidade.

Agora voltem a tomar atencao, para um pequeno exercicio:

O artista pop Richard Hamilton caracterizava assim a sua arte (em 1957):

“A Arte Pop e’ popular (concebida para uma audiencia de massas), transitoria (solucao de curto-prazo), descartavel (facilmente esquecida), de baixo custo, produzida em massa, jovem (dirigida ‘a juventude), bem-humorada, artificial, glamorosa, grande negocio.”

Sendo que, este ano, Abril e' Arte Pop, transformem a frase acima, mudando A Arte Pop para Abril.

E o resultado e'...assustadoramente pop?

P.S. Hoje nao tomei os comprimidinhos azuis (vide Matrix I).


Andy Warhol, Che Guevara

(MdF)

quinta-feira, abril 15, 2004

Aos designatários...

...será atribuido o Grau de Mestre em Sexologia Humana pela FML...
Dizem no folheto do mestrado em Sexologia Humana da Faculdade de Medicina de Lisboa, ao que eu respondo: NAIÇE

quarta-feira, abril 14, 2004

A minha comadre...


...Partiu!

Boa Viagem Maria das Flores!
(gostei IMENSO de te ter conhecido in locu, és linda que te fartas!)

A Tangerina

Isto não é um post

Mas estes batuques são. E muito bem escritos. Não tivesse eu de ir fazer as malas agora (farta que estou deste semi-nomadismo!!) e fosse isto um post, haveriam de ver o chorrilho de elogios que pregaria à Mood Swing!

P.S. Mood Swing e nao Moody Swing, como anteriormente escrevi. Ja' emendei.

segunda-feira, abril 12, 2004

OS homens bonitos da selecção, as adolescentes ou...

...Senhor porque é que eu não sofri o sindrome dos jogadores de futebol?



Ontem a falar com o saleiro, após passar na TV o programa sobre os jogadores de futebol da selecção nacional e, de ter lido as mensagens entusiasmadas das jovens em rodapé, cheguei a uma conclusão, após algum diálogo, enquanto no visor aparecia o Danny, como apresentador...

Salgrosso:Tangerina, não me digas que quando eras adolescente não pensavas no Danny!
Tangerina:Não! Achas?!?
SG:Não me venhas dizer que não pensavas seriamente em ter um filho com o sujeito! (isto ou qualquer outra frase de desejo ao antigo jogador)
T:Pois, eu já na altura era mais bolos!

Terei perdido algo na minha adolescência?
Serei normal?

O meu pai é...

...quatro anos mais velho que a Pantera!


A Pantera Cor-de-Rosa fez ontem quarenta anos e, andava eu há uns tempo a perguntar-me pelo Vasco Granja, e semi-senil, o senhor deu ar da sua (des)graça ontem na TV.
Estamos todos a envelhecer, menos a Pantera, essa será sempre jovem e cor de rosa!

A Tangerina

Agnus Dei et caetera (não sei em Aramaico)


Agnus Dei, 1635-1640, de Francisco de Zurbarán, Museu do Prado

1. Espero que todos tenham tido a possibilidade de aderir ao ritual pascoalino de intoxicação gastronómica e que o sacrifício do cordeiro ou do borrego (confundo-os...confundo sobretudo os seus pais..) tenha corrido pelo melhor. Os níveis de ácido úrico, colestrol e glicémia hão-de voltar ao normal amanhã. Se o meu corpo quiser.

2. Acho que perdi uma aposta. Nada de grave, não apostei nenhum rim. Dúvida: o miguel do Intermitente é o MEC? Alguém me disse, de fonte segura, que sim. Mas quem era(m) a(s) minha(s) fonte(s) e a(s) fonte(s) da(s) minha(s) fonte(s)? É assim que se criam mitos urbanos. De facto, indo ao blogue e tentando fazer uma análise de conteúdo, tenho de admitir que é estranho aparecer "Portugal.Setúbal". Sou boa perdedora (lá está, não apostei nenhum rim..), mas faz-me espécie (há muito tempo que não ouvia esta expressão) a criação deste mito e doutros. Muito haveria a dizer sobre a criação de mitos (e tradições), mas é tarde. Só me falta liquidar a aposta.

3. Como era a vida sem telemóveis? Lembro-me que fazia tudo o que faço agora, mas não sei como é que me organizava e fazia combinações com as pessoas. Esta semana perdi o telemóvel de vista umas duas ou três vezes (apenas!!) e isso só me trouxe e poderá ainda trazer-me maçadas (- Dad, podes passar por aqui e trazer-me o telemóvel? Acho que o deixei na sala.) - Certo, é um objecto pequeno e perdível!, dirão muitos. Tal como as chaves e os elásticos para o cabelo. Lembram-se como era no final dos "eighties"?:

"Back in the late 80’s the first generation mobiles were brick-sized analogue devices that sent your private phone calls unencrypted over the air, ready for any person with the right bit of kit to intercept." (isto é perfeitamente traduzível para Português, mas é tarde...)

Portanto, eram grandes e menos perdíveis? Andei então à procura de um tijolinho-anos-80 e descobri isto:

"LO - F I P H O N E

11 Mar 2003 / Random Idea # 003
The first in a line of slow technology products. This low fidelity mobile phone offers retro, vintage chic in its size and shape, inspired by the forms of first generation mobiles. Note the handsome addition of a rotary dial.
" (é tarde, é tarde!)

No entanto, "... Swedish researchers said that long-term users of first-generation mobiles faced an 80 percent greater risk than non-users of developing brain tumors. ... " (cada vez mais tarde...) Hmmmmmmm...

Bem, não se pode ter o sol na eira e a chuva no nabal. Pai, vê lá se me encontras o meu device de segunda geração, por favor! (tarde zzzzzzzzzzz)

quinta-feira, abril 08, 2004

Páscoa Feliz



A Tangerina

quarta-feira, abril 07, 2004

A escala


Gustavo Costa 2004

"No meu entender, a escala é a inteligência da vida." (Gérard Castello-Lopes) Acho que era assim a frase. Conferir na exposição temporária "Oui Non", no Centro Cultural de Belém, até 25 de Abril. Visitas guiadas aos Domingos, às 16h. A Travessa aconselha. Um génio da fotografia. Ainda vivo.

Anos 50. Havia gente que andava à procura de formas de registar o mundo sem artifícios convencionais, sem academismos de escola, de uma maneira mais directa, mais documental. Eram os seguidores da chamada Corrente Humanista, tais como Henry Cartier-Bresson ou Robert Doisneu, este último, by the way , sempre representado aqui no Travessa, à direita, com a sua foto de uma travessa algures em França (nan ma lembra agora o nome da aldeia). Gérard Castello-Lopes tropeçou no trabalho de Henry Cartier-Bresson, em plena ditadura - a censura não tinha mão para tanto trabalho; houve obras que escaparam à mão castradora dos oficiais da censura, pura e simplesmente por terem excesso de trabalho. Foi aí que começou uma admiração incondicional pelo fotógrafo francês, a quem Gérard chama de mestre "no sentido quase helénico da palavra", embora nunca o tenha conhecido.

"Gérard Castello-Lopes (Vichy, 1925) ocupa um lugar de referência no panorama da fotografia portuguesa da segunda metade dos anos 50, fazendo parte de um pequeno grupo que se destacava do ambiente fotográfico da época dominado pela fotografia salonista e oficial. No seu percurso fotográfico destacam-se os anos de 1957 e 58 como anos de intensa produção, cujas imagens na sua grande maioria, são agora expostas pela primeira vez. A viver desde sempre entre Paris e Lisboa, fotografa intensamente em Portugal e por essa Europa fora. Contudo, num Portugal isolado do resto do mundo, Gérard Castello-Lopes estava condenado a um percurso solitário e sem visibilidade. Afasta-se da fotografia durante 17 anos, até que António Sena o desafia em 1982 a fazer uma exposição do seu trabalho da década de 50.

Retoma a partir daí com renovado entusiasmo a fotografia não a abandonando mais até aos dias de hoje. Tendo assumidamente como mestre Henry Cartier-Bresson, a primeira parte da sua obra reflecte a realidade portuguesa num país asfixiado pelos princípios corporativos do Estado Novo. Nos anos 80 Gérard Castello-Lopes abandona o registo do quotidiano e da realidade e volta o olhar para aquilo a que ele chama o “paradoxo das aparências” e para a procura do “surdir arquétipal” que se revela na secreta assinatura do autor. Oui Non é a primeira exposição sobre a obra completa de Gérard Castello-Lopes.
" (Centro Cultural de Belém)

Links relacionados:
Instituto Camões
Público


G. Castello-Lopes. Lisboa, 1957 e Portimão, 1957, respectivamente.

serão os olhos o espelho da alma?

O Bruno diz no seu blog que gosta de um olhar triste.
Eu confrontei-o com o facto de um olhar triste revelar tristeza, e fi-lo, não só apoiando-me no provérbio português, mas também na minha sensibilidade pessoal e clínica. A meu ver, o olhar é sem qualquer sombra de dúvida, um excelente instrumento para vermos como estão as pessoas, e penso que se por um lado podemos marcarar tristeza, por outro os nossos olhos não o podem.
Agora se existe alma ou não... isso são contas fora do meu rosário!



A Tangerina

ruela



Viseu, Março de 2004

A Tangerina

uma prenda de uma amiga

A teamwoman enviou-me esta prendinha especialmente para mim, digam lá se não é catita?!?


Obrigada Vizinha Team!

A Tangerina

terça-feira, abril 06, 2004

O que fazer sem sal?



As tuas melhoras Sal-Grosso!
(vais ver que isso são só saudades ;-))

A Tangerina

o meu novo relógio

Quem me conhece, também conhece a minha tara por relógios, agendas e contadores de tempo afins.

Por isso aqui fica a minha nova aquisição!


A Tangerina

Parabéns para a Menina BA-TA-TA


Bibis especiais!

A Tangerina

Agora só falta você

Um belo dia resolvi mudar
E fazer tudo o que queria fazer
Me libertei daquela vida vulgar
Que eu levava estando junto a você
Em tudo o que eu faço
Existe um porquê
Eu sei que eu nasci
Sei que eu nasci prá saber
Prá saber o quê
E fui andando sem pensar em mudar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou.lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu
No ar que eu respiro
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou
Agora só falta você!
Agora só falta você!


Letra: Rita Lee/ Luiz Sérgio
Cantado por: Maria Rita

Uma excelente Páscoa para todos!!!!

domingo, abril 04, 2004

Lugares


Lamego, Dezembro de 2003

A Tangerina

Janelas


Viseu, Março de 2004

A Tangerina

sexta-feira, abril 02, 2004

Sugestão para o fim-de-semana



Tem piada... A "Paixão de Cristo" estreou primeiro em Portugal e só agora chegou á terra onde me encontro emigrada. Por outro lado, o "Belleville Rendez-Vous" estreou há seis meses em Inglaterra e, reparo agora, só chegou a Portugal na semana passada. Nunca percebi muito bem a distribuição dos filmes. Acontece que há seis meses postei sobre este originalíssimo filme de animação francês, aqui no Travessa. E aqui reposto o post (sem ser em itálico, porque muito itálico é uma maçada para a vista, não é?):

"[ Sex Set 19, 11:41:54 AM |
Belleville Rendez-Vous (BRV)

Como prometido “ha’ atrasado”, vou descongelar uma posta que tinha para aqui em forma de pequenas notas e que, por falta de tempo, ainda nao me tinha dado ao trabalho de alinhavar. Dai haver partes com acentuacao perfeita e outras nem por isso (2 teclados diferentes).

Hoje e’ sexta-feira, dia de estreias no cinema. Aqui vai, pois, uma sugestao, embora nao saiba se Belleville Rendez-Vous (Les Triplettes de Belleville, no original frances) ja estreou em Portugal ou noutros paises que nao o Reino Unido.

O novo filme animado de Sylvain Chomet é comovente, hilariante e tão francês que se consegue sentir o sabor de Brie. Trata-se de uma producao Franco-Belga-Canadiana, infinitamente inventiva e deliciosamente negra. Esquecam os preconceitos habituais dos desenhos animados terem as criancas como publico-alvo. A sofisticacao macabra deste filme notavel e’ talvez areia demais para a camioneta dos petizes.

Sendo uma referência brincalhona aos filmes de Jacques Tati, com umas leves (muito leves) pinceladas de Betty Boop e de, há quem diga, 101 Dálmatas, é possivelmente dos filmes mais originais dos últimos tempos. Se existisse alguma justiça no mundo, este seria um filme a ser oscarizado. BRV não segue nenhuma das regras a que estamos habituados, sobretudo se o compararmos ao mundo Disney. Apresenta um estilo de narrativa completamente novo, assim como um estilo visual tão original, que permanece na memória até muito depois de ter passado a ficha técnica (conselho: ficar até ao final da ficha técnica, para uma pequena surpresa). BRV tem a pungência de Amelie de Jean-Pierre Jeunet, mas é um pouco menos inocente. Tanto a animação em si como a história são ricas em pormenores e excentricidade .

O realizador Sylvain Chomet oferece-nos maravilhosos momentos, em que o absurdo impera. Veja-se o climax com a perseguicao de carros em praticamente camara lenta e as personagens grotescas, que dificilmente poderiam ser tranformadas em bonecada para a criancada e oferecidas em Happy Meals.

A história centra-se na diminuta Madame Souza (eu nao vou dizer a nacionalidade dela; os pormenores da animacao dao-nos a resposta), que vive apenas com e para o seu neto, um rechonchudo e tristonho órfão. A “Sadona” Souza tenta de tudo para despertar no neto algum interesse por qualquer hobby que seja. Compra-lhe até um fiel cachorrinho, o Bruno (que, na verdade, pelos detalhes da animação, se conclui que é uma cadela), que acaba por ser a perspectiva através da qual vemos a história. O rapaz acaba por desenvolver uma paixão (exarcebada) pelo ciclismo, começando pelo triciclo até se tornar um campeão que entra na Volta a França em Bicicleta, graças aos treinos obsessivos da sua personal trainer, Madame Souza. Quando Champion e’ raptado pela mafia francesa e levado para a grande metropole Belleville, a avo’ e Bruno (cao que sofre de obesidade cronica e de sonhos profeticos) iniciam uma verdadeira odisseia em sua busca. E’ na tal metropolis francofona, que poderia ser uma qualquer Nova York, mas com arranha-ceus em estilo gotico, que Dona Souza conhece as trigemeas de Belleville, cacadoras de ras, outrora grandes estrelas do music hall, mas agora um pouco em decadencia.

Satira aos tempos modernos, da lufa lufa diaria, do transito infernal, da desumanizacao citadina, do fast food, da obesidade e do crime organizado, e’ tambem uma nostalgica visao do modus vivendis da velha Galia. E como sobrevive alguem ainda tao enraizado ao antigamente num meio tao metropolitano e desumanizado? Vence aqui a inventividade, a obsessao, a ternura e a lealdade, contra todos os traumas de infancia (sim, ate’ Bruno tem traumas de infancia) e conflitos entre o velho e o novo. E a pequena e roliça Madame Souza, com uma perna maior do que a outra, e’, possivelmente um tipo de heroi que jamais nos passaria pela cabeca que existisse. A verdadeira campea desta historia e’ esta rija idosa portuguesa (pronto, afinal disse a nacionalidade), avo’ incansavel e babosa do seu netinho. Um hino ‘as avos portuguesas.

E’ um filme em que se sente tanto este enfoque nas relacoes entre o velho e o novo, que as personagens, desenhadas a tinta e caneta, sao a duas dimensoes e postas em cenarios computadorizados a tres dimensoes. Este estilo visual, ao mesmo tempo naive e sofisticado, esta a milhas de distancia do estilo de animacao Disney ou Manga. Que bom que e’ ir ao cinema e ainda sermos surpreendidos!

A Travessa aconselha. Brilhante (****).


RESUMO:
O filme tem: Josephine Baker dançando ao som de Django Reinhart (ate' que um bando de macacos endiabrados lhe rouba a saia feita de bananas); Fred Astaire e os seus agressivos sapatos; um cao com pesadelos sobre viagens de comboio; uma velhota que usa granadas para cacar ras; mulheres de cabaret que usam um frigorifico, um jornal, um aspirador e uma roda de bicicleta como instrumentos musicais; uma perseguicao que desafia as leis da gravidade; um sketch comico depois da ficha tecnica; e muito mais. "