Conversa na Travessa

sexta-feira, fevereiro 27, 2004

Vizinhança:

Embrenhada que tenho estado em múltiplas actividades de teor exclusivamente laboral, venho agora roubar uns minutos à mesma para vos presentear com fantásticas descobertas. Assim,

Descoberta fantástica número 1- Uma boa razão para os computadores poderem fazer mais trabalho que as pessoas é nunca terem de parar para atender o telefone. Regra de Robbins

Descoberta fantástica número 2- A probabilidade de perda de dados num disco aumenta em proporção directa do tempo que passou desde que se fez a última cópia de segurança. Lei da perda de dados de Pickering

Descoberta fantástica número 3- O inferno é o lugar onde tudo é perfeito nos ensaios, mas nada funciona realmente. Máxima de Campbell

Descoberta fantástica número 4- Ao criar o homem, Deus sobrestimou as suas capacidades. Observação de Wilde sobre o Homem e Deus

Descoberta fantástica número 5- Realizar o impossível significa apenas que o nosso patrão o acrescentará aos nossos deveres habituais. Principio burocrático de Larson

And last but not least

Descoberta fantástica número 6- É inútil aos carneiros aprovar resoluções sobre o vegetarianismo se os lobos tiverem uma opinião diferente. Axioma de Inge

Foi uma semana profícua!




quinta-feira, fevereiro 26, 2004

Ao Pinga-amores

É verdade que o Lost in Translation fez furor nas lides blogosféricas, no entanto o último filme que vi foi o "Portugal S.A." Afinal o cinema Português está, no meu entender, a dar grandes cartas.
Aconselho vivamente.


A Tangerina

Aqui a Maria vai fazer gazeta. Vai, Maria, Vai

A proposito do dia Z e a proposito da minha escapadinha de fim-de-semana:

Vai, Maria, Vai

Vai, Maria vai
Maria vai
Maria vai trabalhar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria

Vai, Maria vai
Maria vai
A roupa branca lavar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria

Vai, Maria vai
Maria vai
A roupa branca enxugar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria

Vai, Maria vai
Maria vai
Aquele chão esfregar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria

Vai, Maria vai
Maria vai
O meu menino calar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria

Vai, Maria vai
Maria vai
Maria vai trabalhar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria


(letra e musica: Zeca Afonso)

Eu vou ver o meu benzinho
lá prós lados dum paçal
vou-lhe dar o meu lenço de linho
que é do mais fino bragal

(Adaptado de Zeca Afonso)

Magazine da Travessa: Hell is...other people.



Porque hoje me sinto existencialista e um pouco Anabela M.R., vou ao teatro ver "No Exit" ("Huis Clos", Jean Paul Sartre).

Sartre tem uma visao intensa do que e' o inferno. O Inferno NAO e' fogo, nem demonios, nem intrumentos de tortura. O Inferno E'...os outros.
Tres pessoas encontram-se no inferno. No inicio tentam esconder-se umas das outras, mas nao conseguem viver juntas sem penetrarem na esfera intima do proximo. Obrigam os outros a confessarem o que fizeram e por que o fizeram. Ninguem tem permissao de manter o seu segredo, ninguem e' poupado 'a humilhacao de ser reconhecido por aquilo que e'. No entanto, quanto mais se magoam uns aos outros, quanto mais as suas vidas se transformam num verdadeiro inferno, mais apegados ficam entre si. Confessa Ines, uma das personagens: "Moi, je suis mechante: ça veut dire que j'ai besoin de la souffrance des autres pour exister..."
A força da peça acenta na tensao erotica, densa e clasutrofobica, que se desenvolve entre as personagens. "L'enfer - c'est les autres."

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

Douro

Qual carnaval, qual carapuça (expressão apropriada para a quarta feira de cinzas).

Este fim de semana estive para terras do Douro e adorei!
Aqui fica uma imagem de um dos locais onde "o silêncio se faz ouvir"

S. Salvador do Mundo.

A Tangerina

segunda-feira, fevereiro 23, 2004

Por que transporto comigo pilhas gastas quando vou a Portugal...

...embora ainda nao saiba que destino lhes e' dado pelas autoridades portuguesas. Pelo menos, tem o seu lugarzinho no eco-ponto.

Resposta: Por causa disto:

"Why can't the British recycle their household batteries? A pilot project has revealed that they can, but to do so requires the political will, reports Erin Gill" (no The Guardian de 19/11/2003, num computador perto de si.

Oh pá.....

...fico tão orgulhosa quando somos referenciadas como fontes credíveis de informação.
Então não é que vieram cá à procura de informações acerca da vida amorosa do Vergílio Ferreira.
Então chegue-se lá para aqui. O Sr. Vergílio morava ali no 7 e,....

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Gosto da cidade que amanhece

Gosto de Londres. Nao gosto do metro de Londres.
Gosto de pequenas e de grandes viagens. Nao gosto de dormir menos de 6 horas diarias.
Gosto disto:

Cansados vão os corpos para casa
dos ritmos imitados de outra dança
a noite finge ser
ainda uma criança
de olhos na lua
com a sua
cegueira da razão e do desejo


(...)

(again, Sergio Godinho. LISBOA QUE AMANHECE )

Nao gosto de me repetir.

Fumar......

....mata!

quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Ainda a discussão

Quando se coloca em xeque a minha profissão, tenho de me defender!
Já que o tal dr. Villas Boas, tem a posição que tem sobre a sexualidade, acho que vale por si mesma: apenas uma opinião. E ele não fala por todos os psicólogos, fala por ele mesmo!
É verdade que a psicologia não tem Ordem, mas alerto que recorre a estes serviços para pedir a carteira profissional dos psicólogos, e só efectuar terapia com psicólogos clínicos ou, com formação em psicoterapia. Acho que só assim, não se compra gato por lebre!

A Tangerina

quarta-feira, fevereiro 18, 2004

A quebra do último elo

Depois disto, as meninas desta geração nunca mais vão sonhar com " e viverão felizes para sempre"...
Ao fim de 43 anos juntos, Barbie e seu namorado Ken vão separar-se. O anúncio foi feito ontem por Russell Arons, responsável de marketing da Mattel, empresa detentora dos direitos sobre estas personagens. Numa paródia aos habituais discursos dos porta vozes de casais famosos, o executivo assegurou que os dois "permanecem bons amigos". O anúncio coincide com o lançamento da Cali Girl Barbie, versão inspirada na típica 'teenager' da Califórnia, que veste calções, top de biquini e tem a pele bronzeada. Segundo a France Presse, Arons sugeriu ainda que no fim do segundo semestre deste ano, pode aparecer outro homem na vida da boneca.


Segundo rumores e testemunhos fotográficos, o relacionamento entre os dois já era últimamente pautado por uma certa dose de violência doméstica.


Principalmente depois desta devastadora descoberta.



Dinastia Han


A dinastia nasceu há 2.200 anos e durou mais de quatro séculos. Ainda hoje, as pessoas de etnia chinesa dão a si próprias o nome Han, num eco de uma idade de ouro em que, na arte, na política e na tecnologia, a China rivalizou com o império romano.

"Sob a copa de uma árvore, o ferreiro malha o ferro a quente. À medida que o martelo bate, a chapa lisa de metal começa a parecer-se com uma enxada; e não é uma enxada qualquer. É uma ferramenta pesada, grande, de lâmina grossa. Uma enxada para durar. “Ninguém consegue parti-las”, diz um aldeão, sobre as enxadas de Liu Shiwa. “Já uso uma há 12 anos.” Na aldeia de Shijiawan, perto da antiga cidade de Luoyang, o ferreiro é um cidadão considerado. Florescentes de couves e cebolas, as leiras de terra arável da aldeia devem os seus sulcos e solos friáveis às enxadas e ancinhos fabricados por Liu Shiwa na forja, diante de sua casa. Dois porcos grunhem na pocilga, a um canto do pátio. Várias galinhas e um cão vagueiam nas redondezas. A cena parece retirada dos tempos da dinastia Han. Os historiadores afirmam que a época dos Han terminou há 18 séculos, mas enganam-se. O chiqueiro dos porcos, as galinhas e o cão são exactamente iguais aos artigos de cerâmica, representando uma quinta em miniatura, que a gente dessa época colocava nos túmulos dos falecidos. A forja e a enxada conferem antiguidade à cena, pois os trabalhos com instrumentos de ferro eram característicos dos Han. A durabilidade foi também característica dos Han, uma das mais longas das principais dinastias da China, pois sobreviveu, com pequenas interrupções, durante mais de quatro séculos. Desde a sua fundação, em 206 a.C., o estado Han tornou-se muito poderoso e gozou na Ásia Oriental de tanto prestígio como o império romano – seu contemporâneo aproximado no Ocidente. À semelhança dos romanos, os Han alargaram os seus domínios aos territórios “bárbaros” que com eles confinavam, em especial a noroeste, onde os seus exércitos abriram caminho ao comércio ao longo da Rota da Seda. Tal como Roma, porém, a dinastia gerou igualmente o seu quinhão de governantes ineptos. Viria a entrar em decadência e chegou ao fim em 220 d.C. Apesar de tudo, legou aos vindouros um modelo de governação, uma China unida e um governo que se perpetua a si mesmo, objectivo de todas as dinastias que se seguiram e que permanece vivo para a dinastia actualmente detentora do poder na China (oficialmente comunista, mas com o capitalismo presente). Do legado Han faziam também parte uma dinâmica ética e espiritual que serve de guia a milhões de asiáticos. O próprio nome Han, retirado de um rio, ainda permanece: assim se chamam a si próprias as pessoas de etnia chinesa – Han ren, povo Han. Em numerosos aspectos, os trabalhadores Han levavam um grande avanço sobre os seus homólogos romanos: usavam o carrinho de mão e o molinete para transportar mercadorias, o martelo mecânico movido a água para reduzir a pó cereais e minérios e foles para bombear ar para as fornalhas. Os Han foram também os primeiros a fabricar um produto que revolucionou o conhecimento: o papel, a que chamaram zhi"


Este é um excerto de uma fabulosa reportagem que podem encontrar na National Geographic deste mês.


Arteriosclerose arrogante

Eu hoje ia comparar os efeitos do chocolate preto com os efeitos da maconha, mas passei pelo liberdade-de-expressao e mudei de ideias. "Maria Filomena Monica deve ter aprendido biologia com os Filhos de Rousseau", sugere Joao Miranda em 16/02/04. Tambem me pareceu. Leiam-se aqui perolas como:

"As mulheres e os homens possuem conjuntos de interesses genéticos, não só diferentes, como contraditórios. Um dos factores que explica, por exemplo, a maior prevalência de agressividade nos homens é a existência do cromossoma Y."

ou ainda

"Os homens fazem-me falta, quanto mais nao seja para eu poder exibir a minha superioridade."

Tenho a certeza que Steve Jones, professor de genetica numa universidade londrina (autor de "Y: The Descent of Man", Penguin, 2002) nao quis dizer nada disso. Houve alguem que se esqueceu de tomar uns certos comprimidinhos ao escrever esta cronica no Publico (com acento agudo no "u"), nao foi? E' o problema de nao se considerar a ignorancia cientifica como falta de cultura.

terça-feira, fevereiro 17, 2004

ainda os testes

I am 13% Internet Addict

I am amazed that I even found this test. This is my first time online, isn't it great, I figured out this AOL-thing! But I don't quite know how to turn the computer off.

Take the Internet Addict Test at fuali.com

Obrigada ao Pulha Luís Olival (ao qual estou adicta)
A Tangerina

segunda-feira, fevereiro 16, 2004

São bocas....

Houve um (a) cibernauta que ao fazer uma pesquisa Google em produtos de limpeza veio aqui parar.
Se alguém acha que aqui fazemos lavagem de roupa suja e limpeza de línguas com sabão, desengane-se... aqui somos pessoas sérias...e nada asseadas!

Lavadeiras de Caria na Ribeira de Santa Ana - Caria
Fonte: Associação Recreativa e Cultural de Caria

SPAM: agora ate' recebo convites para ouvir falar de cereais!

Recebi isto hoje, via email:

"We are delighted to invite you to the second talk of our series “Two
projects in cereal archaeogenetics: a forward look”
given by Prof. Martin
K. Jone"


Deve ter sido engano. Eu e' mais bolos, mas tambem nao desgosto de cereais salpicados de frutos vermelhos. Mas sempre tive curiosidade em relacao aos "Chocolate Frosted Sugar Bombs", os cereais preferidos do Calvin. Este jogo deve ser giro:

"Stupendous Man: The Game
It's Pacman, Calvin-style! Help Stupendous Man eat all of the "Chocolate Covered Sugar Bombs," without getting hit by Miss Wormword, the Principal, Susie, or Rosalyn. Whole boxes of the cereal will temporarly power you up. Just one level for now, more to be added later (hopefully).
"

Para saber mais sobre cereais ficticios, dirigir-se aqui.


domingo, fevereiro 15, 2004

Ainda o dia de S. Valentim

Este ano resolvi ir com o Sal-grosso fazer TUDO o que os outros namorados fazem, ou penso que fazem.
Mas concluo que, não vale a pena sair de casa nesse dia. ODEIO confusão!
Mas o que eu ODEIO ainda mais, são as fugas que a malta que não tem namorado faz, estes comentários de independência do é tão bom estar só, pois assim não tenho gastos, nem me chateio na confusão irrita-me. É que no outro lado do olhar está um ar perdido que grita estou tão farta de estar só!
Porquê tantos problemas em aceitar que estamos tristes por não termos alguém?!?

A Tangerina

O meu Gastão!

Agora digam-me lá, se o meu Gastão não é um miau simpático?

A Tangerina

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

"It's a man's world"

Igbo child’s doll

A conviccao ocidental de que os homens dominam e sempre dominaram as mulheres passa de geracao em geracao, tal qual um gene letal. Mas sera' isto realmente verdade? Ou melhor, tera' isto sido SEMPRE assim?

Mas antes de continuar...

AVISO: isto e' um post longo, formato XL. Recomenda-se: imprimir e ler no fim-de-semana, 'a falta de programas melhores.

Ontem prometi ao Andre' que lhe tentaria explicar por que e' que nao concordava com a sua afirmacao
"Desde que o mundo é mundo que a mulher é oprimida das mais diversas formas em todas as culturas de todos os continentes. (ler post de ontem, "Filipe Matamouros"). Nem com esta: "Temos o privilégio de viver numa sociedade mais livre porque a circunstancia histórica ditou que essa libertação começasse por aqui (...)" Nao que eu nao ache que a mulher continua a ser oprimida de varias formas, em diferentes lugares (inclusive "aqui"). Nao que eu nao ache que as mulheres tenham ganho mais liberdades nos ultimos anos, aqui no Oeste. Nao que eu esteja a favor da proibicao do veu islamico nas escolas francesas (que nao estou). O problema e' que eu nao acredito no linearismo historico e, portanto, tanto nao acredito que "as coisas dantes e' que eram boas" e que tudo tende para o pior, nem acredito que as coisas foram evoluindo do pior para o melhor. A historia nao e' uma recta. Ate' porque ha muitas historias. Curvas. Estorias...


Lembrei-me de um livro que li ha' muito tempo, Fisher, Helen (1992). Anatomy of Love: A Natural History of Mating, Marriage, and Why We Stray. London: Simon & Schuster (ha' uma traducao em Portugues de Portugal e outra do Brasil), em particular do capitulo #11 ("Women , Man, and Power: The Nature of Sexual Politics, pp. 209-226"). Reli apontamentos. Vou dar o exemplo dos Igbo, tribo nigeriana, antes e apos a colonizacao britanica. Dou-vos primeiro uma "imagem", em forma de texto:

Tens of thousands of women, their faced smeared with ashes, wearing loin-cloths and wreaths of ferns, poured from villages across South-eastern Nigeria one morning in 1929 and marched to their local ‘native administration’ centres. There the district’s British colonial officers resided. They congregated outside these administrator’s doors and shook traditional war sticks, danced, ridiculed them with scurrilous songs, and demanded the insignia of the local Igbo men who had collaborated with this enemy. At a few administration centres women broke into jails to free prisoners; at others they burned or tore apart native-court buildings. But they hurt no one.
The British retaliated, opening fire in two centres, slaughtering sixty women. So ended the insurrection. The British ‘won’.
” (Fisher 1992: 209)

History often records the words of victors, and this ‘women’s war’, as the Igbo called it, soon acquired its British name, the Aba Riots.” (Van Hallen 1976 in Fisher 1992: 209-210).

Os britanicos nunca compreenderam bem as razoes desta guerra – que tinha sido integralmente orquestrada por mulheres e para as mulheres. A nocao de violacao dos direitos das mulheres estava para la’ do seu entendimento. A maioria dos oficiais britanicos pensaram que os homens Igbo tinham organizado esta manifestacao e depois levado as suas mulheres a revoltarem-se. Os oficiais pensavam que as mulheres Igbo tinham feito disturbios porque estas pensavam que os britanicos nao disparariam contra o sexo mais fraco (Van Hallen 1976 in Fisher 1992: 210).

Tem havido um profundo mal entendido europeu em relacao ‘as mulheres, homens e poder nas outras culturas.

Durante seculos, estas mulheres (Igbo), tal como muitas mulheres doutras sociedades da Africa Ocidental, foram autonomas e com poder, economica e politicamente. Viviam em aldeias patrilineares onde o poder era informal. Qualquer pessoa podia participar nas assembleias da aldeia. Os homens controlavam a terra, mas depois do casamento o marido era obrigado a dar ‘a mulher parte da sua propriedade para ser cultivada. Esta terra era a conta bancaria da mulher. As mulheres cultivavam varios tipos de plantacoes e levavam os seus produtos para os mercados locais, geridos exclusivamente por mulheres (Van Allen 1976; Okonjo 1976; Fisher 1992: 210).

As mulheres tinham, portanto, liberdade financeira, poder economico. Se um homem pusesse o seu gado a pastar nos campos da mulher, ou a maltratasse, ou violasse o codido de Mercado, ou cometesse outro crime serio, as mulheres fariam o que poderiam tambem fazer aos administradores britanicos: iriam a casa do criminoso, insultariam, ‘as vezes destruindo tambem a sua casa. Os homens Igbo respeitavam as mulheres: o seu trabalho, os seus direitos, as suas (das mulheres) leis.

Chegam os britanicos. Em 1900, a Inglaterra declara a Nigeria como seu protectorado e instala um sistema de areas de tribunais de nativos (native-court areas). Cada distrito era governado por um oficial colonial britanico, o que era muito impopular entre os Igbo. Depois, os Brits nomearam um representante de cada aldeia, um chefe nomeado, e meteram um em cada tribunal do nativo de cada distrito. Muitas vezes era um jovem Igbo, que, por alguma razao, tinha agradado aos conquistadors, em vez de ser um anciao respeitado pelos Igbo. Enraizados na crenca vitoriana de que as mulheres eram os apendices dos seus maridos, os Brits nao conseguiam conceber as mulheres em posicoes de poder. Excluiram, entao, as mulheres, uma a uma. As mulheres Igbo perderam, assim, a sua voz. (Fisher 1992: 210-211)

Em 1929, os Brits decidiram inventoriar os bens das mulheres Igbo. Temendo ter de pagar taxas, as mulheres reuniram-se nas suas pracas, para discutir esta accao economica estropiante. Estavam prontas a rebelar-se. Vestiram roupas tradicionais de batalha e foram para a guerra. Eram dezenas de milhares delas.

Depois da sua revolucao falhada, as mulheres pediram para, tambem elas, poderem ser representantes da aldeia nos tribunais de nativos. Em vao. Para os Brits, o lugar de uma mulher era em casa (Fisher 1992: 211).

Ha' tambem o caso dos aborigenes australianos. So’ a determinada altura e’ que os investigadores (antropologos e afins) se aperceberam que as mulheres aborigenes australianas tinham poder politico e comecavam a escolher novos maridos quando entravam na meia idade. Arranjavam amantes. E a contribuicao economica das mulheres era vital no dia-a-dia. Embora as actividades das mulheres estivessem geralmente separadas das actividades dos homens, as aborigenes australianas pareciam deter tanto poder como os homens. Como o post ja' vai longo (e eu nao quero tornar isto numa coisa tipo peixe-espada - longa e chata), mais referencias sobre os aborigenes aqui: Kaberry (1939); Goodale (1971), Berndt (1981); Bell (1980); cf. Fisher (1992).

Mas, resumindo, nenhum dos sexos dominava – um conceito que parecia ser completamente alienigena aos olhos dos investigadores ocidentais. A analise cientifica de outros povos era (ou e' ainda?) “colorida” com uma obcessao pela hierarquia, a par com crencas bem enraizadas em relacao aos generos (Fisher 1992; 212).

A colherzinha

Era uma vez um amor de talher
Bem arrumadinho num gavetão
Uma colherzinha pequena de prata
E um garfo lindo antigo de latão.

Só de longe é que se olhavam
Nunca, nunca se encontravam
Só desarrumados
É que eles se tocavam.

Assim foi, durante muito tempo
Até que o garfinho tão velho ficou
Que o deitaram fora
Ninguém se ralou
E a história triste quase chorou...

Era uma vez um amor de talher
Mal arrumadinho num gavetão
Só que a linda colherzinha
Que era esperta e pequenina
Tinha-se escondido escondidinha
Atrás dele...

E finalmente longe de toda a gente

A sós
O beijou

Voz: Jorge Palma
Letra e música: Nuno Rodrigues

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

eu sou um burro stressado!



Olha o que chega daqui a nada aos cinemas!!!!!!!!!
Obrigada Molin pela dica!

A Tangerina

quarta-feira, fevereiro 11, 2004

O Primeiro Gomo da Tangerina

Já que todas colocam poemas... eu mantenho a minha linha egocêntrica!

Todos vieram
ver a menina
ao primeiro gomo de tangerina
menina atenta
não experimenta
sem primeiro
saber do cheiro
o sabor dos lábios
gestos sábios

Fruta esquisita
menina aflita
ao primeiro gomo de tangerina
amarga e doce
como se fosse
essa hora
em que chora
e depois dobra o riso
e assim faz seu juízo

Sumo na vida
é o que eu te desejo
um beijo um beijo

Ah, que se lembre
sempre a menina
do primeiro gomo de tangerina
p'la vida dentro
é esse o centro
da parcela da vitamina
que a faz crescer sempre menina

A terra é grande
é pequenina
do tamanho apenas da tangerina
quem mata e morra
nunca percorre
os caminhos do que há de melhor
nesse sumo
a vida, gomo a gomo

Sumo na vida
é o que eu te desejo
rumo na vida
um beijo
um beijo

Sérgio Godinho

A Tangerina

Ainda nao me apetece escrever. Estou dormente.


By Luc Delahaye. Genia & Genia. Russia. Siberia. Cidade de Omsk

Estou Cansado

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo. [Well...]
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, [hmmm....]
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
(Alvaro de Campos)


terça-feira, fevereiro 10, 2004

Nao me apetece escrever and who cares?


by Fernando Scianna


Não

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

(Álvaro de Campos)

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Enlace

Num qualquer restaurante, no meio de tanta gente desconhecida, o seu olhar gritava ajuda.
Por vezes lá trocavam olhares e pedia-lhe, num grito sem som, que a levasse dali, para qualquer local onde estivessem os dois.
O jantar demorava tempo demais, as conversas eram circunstanciais demais, tudo estava a mais, menos ele.
Tinha sentido uma enorme vontade de o abraçar, perdidos na multidão, tempos antes, ainda lhe tinha conseguido apertar a mão, para que não fugisse quando outros tentavam a saída, hoje desejava apenas levantar-se e sair daquele lugar, na esperança que, no baloiçar de braços, os seus dedos tocassem os dele.
Nada, tudo tinha corrido da pior forma. Julgara-o perdido para sempre, sentia isso.
Tinha de ir, partir, tudo estava encaminhado para que a viagem se fizesse e que voltassem num outro qualquer dia, perdida numa qualquer hora, sobre qualquer motivo.
Bebeu um copo, ganhou coragem, abraçou-o por fim, afinal iria ter saudades dele.
Aos poucos as mãos lá se tocaram... primeiro num enlace tímido e discreto de como quem anda na rua e toca o outro que passa no sentido inverso... depois mais modestamente um entrelaçar de dedos tímidos, um tocar de pele doce e aromático.
Horas seguiram horas e a noite cada vez parecia mais curta.
Num pranto de insensatez, ou mais lúcida que nunca, desafia-o para dormir com ela.
Ele aceitou.


A Tangerina

Democracia aberta


Hoje acordei utopica, ainda de madrugada. E fui aqui. Food for thought.

A DEMOCRACIA (Aforismos) (2:03) (In: "Aos amores")

Letra e música de Sérgio Godinho

A democracia é o pior
de todos os sistemas
com excepção de todos os outros


Inda há quem se acanhe
com a pronúncia que tem
mas com cinco letras apenas
se escreve a palavra manhe
que é de todas a mais bela
mais bela que o céu azul
e aqui tem mais letras que no sul

Abel for morto por Caim
irmão nunca vi mais ruim
trespassou Abel
que ao tombar gritou: Mãe!

A mãe, por sinal, já defunta
levantou-se mesmo assim
disse pra Caim
já não és meu filho
meu filho da mãe

A democracia é também
uma mãe mais doce que o mel
só que às vezes Abel mata Caim
Caim mata Abel

Por aqui se prova, afinal
que mãe, afinal não há só uma
só em Portugal
são mais do que as mães.
em suma:

A democracia é pior... etc.

Há muitos países que julgam
que têm democracia
inclusive às vezes o nosso
e erga-se a liberdade ao meio
que só de intenções está o inferno cheio

Não há justiça sem liberdade
e o vice-versa é também verdade
essa é a luta, no fundo
p'los direitos humanos no mundo

Nota: A DEMOCRACIA (AFORISMOS). DF. MANHE A MAÍM, ou a história de como Abel mata Caim e Caim mata Abel. Uma reflexão ao sintetizador sobre uma antiga descoberta da humanidade, muitas vezes saudada, muitas vezes ignorada, poucas vezes cumprida. E por falar em velhos conceitos: as canções, valham elas o que valham, não se explicam. O lado obscuro que possam ter é o seu direito poético; o lado luminoso, o seu dever.
(in Instituto Camoes)

domingo, fevereiro 08, 2004

Para a ba-ta-ta...

... com um especial beijo na Jacky que me acabou de enviar isto para o meu mail!


Bibis a ambas!
A Tangerina

Lost in Translation

...ou a melhor maneira de usar 2 horas do nosso dia a ver um filme excelente!



Não há palavras, já o vi prái umas cinco vezes, em todas elas notei cheiros e cores diferentes. Aconselho vivamente a usarem 2 horas do vosso dia em tal investimento de sensibilidade.

A Tangerina

sábado, fevereiro 07, 2004

Manuel Paes de Sousa

Afinal a Blogosfera nem sempre tem boas notícias.
Faleceu ontem um dos meus professores mais queridos, que me apoiou numa das fases mais complicadas da minha vida.
Recordo o Prof. Paes de Sousa, valente homofóbico, crítico dos bares do Principe Real, e das valentes discussões que mantive com ele nas aulas de Farmacologia, como séria defensora dos direitos dos gay. Discutimos imenso, mas ele sempre terminava a conversa com um simpático "ó filha, sabes sou de outro tempo".
Com ele aprendi sistemas de classificação de doenças mentais e aprendi que tudo não passava de papel que deveriamos sempre contemplar a pessoa como um todo. Fui a alguns congressos e jornadas, como sua convidada e cheguei mesmo a "meter-me" com ele dizendo que um dia tinha que me convidar para sua secretária particular, levava sempre como resposta "ó filha, se quiseres podes ser, mas no estrangeiro só me dão uma cama".
Antes de falecer, ainda lhe fui pedir uma carta de recomendação para um mestrado, ao que ele ao telemóvel me dizia "ó filha, só tens de me dizer a quem a envio"... e ontem, fiz um minuto de silêncio por alma dele!
O Paes de Sousa tinha morrido!
Ainda chorei nas jornadas, onde ele era o presidente, quando a homenagem a seu nome, tinha ficado perdida no frio de um minuto de silêncio.
Vim para casa a recordar a expressão simpática com que sempre me tinha tratado e a lembrar os comentários picantes que nos mandava nas aulas:
"só estou aqui a dar aulas para ver mulheres bonitas, não é pelos 100 contos que me desloco tantos quilómetros".
Que no local onde esteja, Manel, permita que agora o trate assim, as miúdas sejam mais que muitas e que, a todas as trate por filhas.

Vou ter saudades suas!
A Tangerina

sexta-feira, fevereiro 06, 2004

Alguem tem uma aspirina?

Ai...aaaaaaai...

A Aspirina conta ja' com mais de 100 anos de existencia, tendo deixado uma serie de recordacoes e imagens que evocam epocas passadas. Para desfolhar: o Album da Aspirina.

Nao encontrei as minhas aspirinas, mas deram-me este site italiano (grazie, Simone!!), que parece vir a tornar-se meu grande amigo: Que Dor de Cabeca!! Tao queridos...oferecem-nos coisas como cinco minutos de pausa do stress quotidiano (joguinhos) e musica relaxante para fazer passar a dor de cabeca (resultados garantidos).

Blackbird

"Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting
For this moment to arise
Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting
For this moment to be free

Blackbird fly
Blackbird fly
Into the light of the dark black night

Blackbird fly
Blackbird fly
Into the light of the dark black night

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting
For this moment to arise

You were only waiting
For this moment to arise"


Beatles

Esta música sempre me fez sentir bem....pelo menos com mais esperança!


Um post ao estilo da Papoila

Atenção:
Eu tenho dois canadianos!

Repito:Eu tenho dois canadianos, vejam lá se não são bonitos?

Na imagem até são três, porque sou garganeira!

A Tangerina

Miminhos...

...ou obrigada a todos quanto se preocuparam comigo.
Na verdade sobrevivi, sorri mesmo quando tudo passou e dei por mim a arrumar as coisas e a regressar a casa.
Chorei com os telefonemas preocupados de todos quanto gostam de mim, emocionei-me com as mensagens escritas e as postas nos blogues.

Quero agradecer a todos os que gostam de mim e me apoiaram e estão a apoiar na minha recuperação.
Hoje cheguei até à Blogosfera, e para variar deixo
BIBIS
A Tangerina

NOTA: quando uma mulher oferece flores isso é?!?
Resposta: Sinal que gosta muito de mim e eu dela!
NOTA2: Obrigada pela preocupação
NOTA3: Comadres... fixolas o vosso apoio!
NOTA4: Sal-grosso, estas semanas são só uma preparação para muitos fins de semana ;-)
NOTA5: E já que estou numa de agradecimentos: palavras para quê?!? bibis pró papá e mamã! Acreditem que lhes dou muito trabalho estas semanas.

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

Viagens nesta terra - Parte III: O Palavrao

Acho piada ao facto de, na tv britanica, saber sempre de antemao se um programa vai ter palavroes (e quantos e de que tipo) e cenas de natureza sexual. A nao ser, claro, que seja um programa em directo, embora ai avisem que se poderao ouvir improperios impossiveis de censurar. Mas, sera' que dizer obscenidades perdeu o poder de chocar?, pergunta-se Mark Lawson no The Guardian de hoje? Vejamos algumas estatisticas britanicas:

AVISO: use of strong language (twice)

"1965: Kenneth Tynan says 'fuck' on TV and four motions are tabled in parliament
1976: the Sex Pistols use it on a teatime show and are banned from TV
2004: more than 10 million people watch John Lydon [icone punk que aparece num reality show da ITV1, "I'm a Celebrity - Get Me Out of Here!"] use the 'C' word and fewer than 100 complain
". Mais concretamente, ontem Lydon acusou a audiencia do programa de ser uma cambada de "fucking cunts".

Ficha Tecnica:
1. The Guardian
2. Como insultar, praguejar, em 133 linguas: Swearsaurus (dicionario do praguejo e do insulto online)
3. "Swearing: A Social History of Foul Language, Oaths and Profanity in English" by Geoffrey Hughes

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

Desafio

O Bloguítica está a lançar o seguinte desafio. Passo a citar:

"Lanço um desafio aos leitores do Bloguítica que estejam interessados em participar:
Num texto entre 50 e 125 palavras, deverão descrever como é que acham que será a blogosfera portuguesa daqui a um ano.
Todos os artigos que receber (bloguitica@hotmail.com) serão publicados no Bloguítica na próxima segunda-feira. A identidade do autor (e o nome do blogue se tiver um) será revelada ou não, dependendo da vontade do mesmo.
Será certamente interessante ler os textos para a semana que vem e, sobretudo, reler em Fevereiro de 2005…"

Olha....e porque não?

Comadre Tangerina:Estamos aqui a tomar conta de ti!!!


Título: Lunetas
Artista: Lacerda

Volta rápido!!

Então e um joguinho no intervalo??

Antes de mais quero aqui esclarecer que somos contra todo e qualquer tipo de violência física e/ou psicológica exercida sobre qualquer tipo de animal.
E mais....o pinguim não sofre durante o jogo.
Divirtam-se!!!

Para que fique registado

A Comadre Paula, depois de aturadas pesquisas, descobriu o que raio e' afinal um groundhog - uma especie de marmota americana. Obrigada, Paulinha, assim ja' podemos dormir descansados!

Viagens nesta terra - Parte IIB: Oh Primavera, Onde Estas Tu?



A Primavera inglesa e’ particularmente angustiante para quem ja’ esta’ angustiado, pois, como e’ sabido, os dias aumentam anormalmente, quer dizer, nao como pode acontecer e acontece em Madrid e Barcelona quando se aproxima e chega o Verao. Aqui, em Madrid, os dias tornam-se infinitos, mas a luz ai variando e vais-e matizando continuamente e assim da’ fe’ que o tempo avanca, enquanto em Inglaterra – como tambem acontece mais a Norte – nada muda durante horas. Em Oxford a luz e’ a mesma desde as cinco e meia, quando uma pessoa se ve obrigada a reparar nela com a cessacao de todas as actividades visiveis – quando as lojas fecham e os estudantes e professores regressam a casa – ate’ depois das nove, em que por fim o sol se poe subitamente – como se fosse um interruptor a apaga-lo, embora permaneca um resplendor fantasmal e longinquo – e os que saem de noite lancam-se para as ruas com impaciencia. Essa mesma luz imutavel, essa acentuacao do estatismo ou estabilidade do lugar faz com que uma pessoa se sinta parada e ainda mais fora do mundo e de todo o decurso do que la’ e’ corrente, como ja’ expliquei. Nessas horas imoveis nao ha’ nada que azer, se cear com a luz diurna esta’ excluido, como era evidentemente o meu caso. E espera-se. Espera-se. Uma pessoa espera que caia a desejada noite, que desapareca essa luz suspensa e morna, que se volte a por em marcha a debil roda do mundo e acabe a quietude, fechada em casa (...)” [MARIAS, Javier (1989, 2000). Todas as Almas, Lisboa: Publicacoes Dom Quixote, pp. 109-110]

Notas:
1. Mais uma vez, onde se le Oxford, poderia ler-se Cambridge. Onde se le Madrid e Barcelona, poderia ler-se Lisboa.

2. Mais angustiante do que a luz da Primavera inglesa, e' a parca luz do Inverno a estas latitudes (e mais acima ainda pior). O ceu ou esta' cinzento, ou esta' branco, nunca azul, nunca com qualquer matiz de azul. E sempre sempre esta maldita luz crepuscular. Maldito sol, que nunca esta' a pique, para nos confirmar que e' meio-dia! Por isso, nestas altitudes muita gente sofre de S.A.D. (Seasonal Affective Disorder), nomeadamente gente habituada a viver em latitudes mais proximas do Equador. A sigla diz tudo: uma pessoa com S.A.D. (tambem chamado de Winter blues) sente-se muitas vezes sad, ou apatica, com mudancas no humor, apetite ou sono, durante o Inverno. Chega a bela da Primavera e passa tudo, havendo, alias, muitas vezes, casos em que a pessoa durante as primeiras semanas de Primavera tem um "acesso hipomaniaco", isto e', fica hiperactiva. Ocorre mais em jovens (entre os 18 e 30 anos) e mulheres. Ha' desde casos graves de depressao ate' mild symptoms de apatia. E' extremamente raro em pessoas que vivam ate' aos 30 graus de distancia do Equador, onde o fotoperiodo (horas de luz) e' longo e constante ao longo do ano, e onde a luz e' brilhante/clara. Existem tratamentos com luz artificial que parecem aliviar os sintomas. Fazer desporto tambem e' bom.

3. Nalgumas sinopses do brilhante filme Igby Goes Down (traduzido em Portugues para "A Estranha Vida de Igby", acho eu), diz-se que o pai do personagem principal e' esquizofrenico, embora me tenha parecido que do que ele sofria era de S.A.D. (sentia-se melhor quando chegava a Primavera). Mas quem sou eu...

4. Mais informacoes sobre o/a S.A.D aqui ou aqui

5. O dia aqui amanheceu cedo, palido e apatico. Ou terei sido eu? 'A espera...'a espera da Primavera. (acordei com a "Ronda das Mafarricas", do Zeca Afonso, na cabeca: "Estavam todas juntas/400 bruxas/'a espera, 'a espera da lua cheia").

terça-feira, fevereiro 03, 2004

Viagens nesta terra - Parte IIA: Oh Spring, Where Art Thou?



Ontem celebrou-se o Groundhog Day nos paises anglo-saxonicos. Deriva do European Candlemas Day, uma versao cristianizada do Imbolc celta, em que se celebra a metade entre o Solsticio de Inverno e o Equinocio de Primavera. Durante o Candlemas, o sacerdote distribuia velas pelas casas dos seus paroquianos, que eram depois acesas e postas 'a janela. Se o sol aparecesse nesse dia, isso quereria dizer mais seis meses de tempo invernoso. Mas se estivesse nublado ou a chover, significava tempo ameno ate' ao inicio da primavera. Os alemaes que se instalaram em Punxstawney, na Pennsylvania, no seculo XVIII, trouxeram consigo a tradicao do Candlemas. Quando o groundhog (nao sei o nome em Portugues deste mamifero; nao e' uma doninha, nao e' uma toupeira, nao e' um texugo...) sai da sua toca depois da sua hibernacao, marca a estacao. Se ele vir a sua propria sombra, assusta-se e volta para a toca, onde hiberna por mais seis semanas, evitando assim o mau tempo que se avizinha. Mas se o dia esta' nublado, ele nao ve a sua sombra, sai da toca, e considera-se que a Primavera esta' ai ao virar da esquina.

Ontem esteve sempre nublado...Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!

Falta-me o ar- Capítulo IV

15 de Julho
Estou para morrer e sei que não vou pregar olho esta noite. Estou numa situação terrível ou, melhor, só amanhã é que sei se assim é ou não e é isso que torna as coisas tão terríveis.
Depois de termos dançado duas ou três vezes, o Frank convidou-me para ir dar uma volta e fomos passear no carro dele e, finalmente, ele disse que me amava e eu disse-lhe que não fosse tolo e ele respondeu que estava a falar perfeitamente a sério e não há dúvidas de que os seus actos confirmavam esta declaração. Perguntou-me se eu amava outra pessoa e eu disse que sim e depois perguntou-me se não o amava a ele mais do que a qualquer outra pessoa no mundo e eu respondi que sim mas só porque pensei que, de qualquer forma, ele não se ia lembrar daquilo e a melhor coisa, dadas as circunstâncias, era passar-lhe a mão pelo pêlo.
Depois, de repente, perguntou-me quando é que podíamos casar e eu disse, à laia de piada, que com certeza não podia casar antes de Dezembro. Ele disse-me que era muito tempo de espera mas que não havia dúvida que valia a pena esperar e depois disse muitas outras coisas e se calhar passei-lhe demais a mão pelo pêlo e aí é que está o busílis, não sei.
Tinha a certeza absoluta que ele ia esquecer aquilo tudo. Se ele não se lembrar de nada, é claro que se me acabam os problemas. Mas, se se lembrar e se me levou a sério, não tenho outro remédio senão contar-lhe do Walter e se calhar também do Gordon. E não vai ser fácil. Esta incógnita é que está a dar cabo de mim e sei que não vou conseguir sobreviver a esta noite.

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

Viagens nesta terra - Parte I: A Fofoca


"Ter esta fama [de boateiro] em Oxford nao significa absolutamente nada, ja' que o extraordinario e' nao a ter: quem nao seja maldicente ou pelo menos malicioso passa la' uma existencia tao marginal e desacreditada como quem provenha de outra universidade que nao seja Cambridge ou a propria Oxford. E nunca se adaptara', porque nunca ser'a integrado. [ver: livro de Robin Dunbar; Dunbar defende que o "gossip" (a "fofoquice") e' muito importante para a coesao social e diminui o conflito social, ou seja, tem a mesma funcao que a catagem para os primatas nao humanos]. A unica coisa que verdadeiramente interessa em Oxford e' o dinheiro, seguida a certa distancia pela informacao, que pode ser sempre um meio de obter dinheiro. Nao interessa que a informacao seja importante ou superflua, util ou banal, politica ou economica, diplomatica ou epistmologica, psicologica ou genealogica, familiar ou subsidiaria ou sexual, social ou profissional, antropologica ou metodologica, fenomenologica, tecnologica ou directamente falica; mas quem la' queira sobreviver deve possuir (ou conseguir rapidamente) informacao transmissivel de qualquer especie. Transmitir informacao sobre qualquer coisa e', alias, a unica maneira de nao ter de a transmitir sobre nos proprios, e assim, quanto mais misantropo, independente, solitario ou misterioso for um oxoniano [da Universidade de Oxford], mais informacao sobre os outros se supora' que passa a esses outros para que lhe perdoem a sua reserva e lhe concedam o direito 'a sua intimidade. Quanto mais saibamos e contemos sobre os outros, maior dispensa teremos para nao contar nada sobre nos. Por consequencia, toda a cidade de Oxford se aplica plena e continuamente a ocultar-se ou a reduzir-se e simultanemamente a averiguar a maior quantidade possivel de dados sobre os outros, e dai revela a tradicao - certa - e a lenda - certa - da grande qualidade, eficacia e virtuosismo dos dons ou professores de Oxford e Cambridge nas tarefas mais sujas da espionagem [nao so profs., mas tambem estudantes; veja-se na serie da BBC Cambridge Spies] e da sua perpetua e disputada utilizacao por parte dos governos britanico e sovietico como prestigiosos agentes simples, duplos ou triplos (os de Oxford tem o ouvido mais fino, os de Cambridge sao mais ruins)." [MARIAS, Javier (1989, 2000). Todas as Almas, Lisboa: Publicacoes Dom Quixote, pp. 34-35]

[Notas: onde se le "Oxford", poderia ler-se "Cambridge" e vice-versa; comentarios de Maria das Flores dentro de parentesis rectos; frases a bold autoria da mesma (Maria); isto tudo porque ontem fui a um jantar, onde se reuniu parte da minha tribo e respectiva Grande Chefe...]

Falta-me o ar- Capítulo III

Antes de prosseguir com mais este excitante capítulo, penso dever aos caros leitores uma explicação para esta interrupção do nosso folhetim. O caso é que os capítulos nos chegam mais ou menos diariamente, provenientes da Colômbia e como todos nós sabemos a coisa na Colômbia anda difícil. A avioneta onde vinha o correio, foi apreendida, por suspeitas de transporte ilegal de substâncias ílícitas. O que é facto é que a unica coisa viciante que lá encontraram foi este capítulo do folhetim. Após aturada revista à avioneta e depois de deixarmos a promessa que iríamos ser mais regulares na publicação deste drama, as forças da autoridade, permitem agora uma ligação directa Colômbia- Portugal com o único propósito de entregarem diariamente o capítulo correspondente. Um muito obrigada ao Capitan Manolo del Paso e a toda a sua fantástica equipa. Tequilla para usted.Prossigamos então!

14 de Julho
O Gordon telefonou-me esta manhã de Chicago e foi óptimo ouvir a voz dele outra vez, embora a ligação estivesse péssima. Perguntou-me se ainda gostava dele e eu tentei dizer que não, mas sabia que se lhe dissesse isso teria de dar explicações e a ligação telefónica era tão má que nunca conseguiria que ele me entendesse; por isso, disse-lhe que sim, mas num murmúrio a ver se ele não me ouvia, mas ouviu-me perfeitamente, e disse-me que, sendo assim, estava tudo bem. Disse que pensava que eu tinha deixado de o amar porque tinha deixado de lhe escrever. Quem me dera que a ligação estivesse estado boa e que eu pudesse ter explicado o que se passava, mas assim vai ser horrível porque ele pensa estar em Nova Iorque no dia em que eu chegar e só Deus sabe o que farei porque o Walter também pensa o mesmo. Mas agora não vou pensar nisso.
A tia Jule entrou no meu quarto e, felizmente, eu já tinha pousado o telefone. Havia imensas flores no quarto. O Walter tinha-me mandado flores e o Frank tinha feito o mesmo. Recebi outro longo telegrama-carta do Walter, tão pateta como o primeiro. Preferia que ele dissesse aquelas coisas por carta e não num telegrama onde toda a gente pudesse ler. A tia Jule queria que eu lho lesse em voz alta. Era o que faltava!
Estava ela ainda no quarto quando o Frank telefonou a convidar-me para jogar golfe com ele e eu disse que sim e a tia Jule disse ainda bem que me tinha passado a dor de cabeça. Estava a tentar ser irónica.
Joguei golfe com o Frank hoje à tarde. joga muito bem e é fantástico vê-lo a jogar, tem um swing muit mais elegante que o do Walter. Pedi-lhe que olhasse para o meu swing e me dissesse o que é que estava mal. Mas ele respondeu que só conseguia olhar para a minha cara e que esta não estava mal.
Contou-me que o rapaz que estava com ele tinha tido de regressar a casa, o que o deixava muito contente porque podia gostar mais dele, do outro, do que dele, Frank. Eu disse que tal não era possível e ele perguntou se eu estava a falar verdade e eu disse, claro que sim, mas disse-o com um sorriso, para ele não levar as minhas palavras demasiado a sério.
Esta noite voltámos a dançar e o tio Nat e a tia Jule ficaram connosco um bocado e até dançaram um par de vezes: mas eu acho que ficaram para ver se conheciam melhor o Frank e para ver se era conveniente eu andar com ele. De certeza que não foi por gostarem de dançar, nenhum velho gosta, aliás naquela idade já não se pode fazer grande coisa.
Ficaram bem impressionados com o Frank, acho eu, pelo menos a tia Jule não disse que eu tinha de estar na cama às onze horas. Só disse para eu não me deitar tarde. Aposto que é uma grande surpresa para os pais ou para os tios ou tias de qualquer rapariga descobrir que os rapazes com que anda são decentes. Parece que acham sempre que se ela gostar de alguém, ou se alguém lhe der atenção, é porque é cadastrado ou um polícia ou um bêbedo ou qualquer coisa esquisita do mesmo teor.
Esta noite o Frank tinha novas cantigas. Perguntou-me se eu conhecia a canção da asma, eu disse que não e vai ele: “ Tens de a conhecer. É assim: Yes sir ashtma baby”. Depois falou-me da canção da roupa interior. “ I underwear my baby tonight”. Faz-me rir à gargalhada e , apesar disso, tembém tem o seu lado sério, a verdade é que estava seríissimo quando me deu as boas noites e os olhos dele brilhavam imenso. Quem me dera que o Walter fosse mais como ele em certos apsectos. Mas não quero pensar nisso.