Conversa na Travessa

sexta-feira, janeiro 30, 2004

Realmente, Green,...

...este aproxima-se mais da verdade.

You're Sarcastic.You can be sweet,but you prefer
not to let everyone else know that.You'd rather
be controversial and smart.

Ai Jesus!!!!!

Loving
You're the loving smile,the one that is entirely
devoted to others,especially that one
person.You really can't get them out of your
head,but then,you don't really want to.


What Kind of Smile are You?
brought to you by Quizilla

quinta-feira, janeiro 29, 2004

esta agora...

Psycho
You're the psychotic grin,and no one can quite tell
if you're insane or just really hyper.You scare
people,and i mean scare them a lot.Kati'd be
friends with you though.You two could have
sleepovers together and make pasta at 4 am.


What Kind of Smile are You?
brought to you by Quizilla


Maria, estes testes...!
:-)

A Tangerina

Olhos nos olhos, sorrir

"Em Inglaterra, como e' sabido, mal se olha, ou olha-se tao velada e desintencionalmente que se fica sempre na duvida de saber se alguem esta' efectivamente a olhar para o que pare olhar, tao opacos sabem tornar-se os olhos na sua actividade natural. Por isso, um olhar continental (o meu, por exemplo) pode provocar perturbacao na pessoa olhada, mesmo quando entre os olhares possiveis de um espanhol ou de um continental o olhar em questao deva ser qualificado de neutro ou ate' respeitoso. Tambem por isso, quando um olhar insular ingles tira passageiramente o veu que o costuma tapar, o resultado e' escandaloso e poderia ser motivo de querela e discussao caso os olhares que poderiam ver esse olhar despojado de veu nao mantivessem realmente o seu, nao chegando portanto a ver ou a olhar o que para outros olhos sem bruma (continentais, por exemplo) seria evidente e talvez insultusoso." [MARIAS, Javier (1989, 2000). Todas as Almas, Lisboa: Publicacoes Dom Quixote, pp. 47-48]

Assino por baixo. Mas, mesmo antes de me tornar uma estrangeirada, ja' achava que o mesmo se passava em, por exemplo, Lisboa. Em Portugal. As pessoas olham-se pouco, e sorriem ainda menos, sobretudo ao estranho que passa na rua. Nao suporto estar a falar, com o meu olhar virado para, por exemplo, Oeste, e o meu interlocutor com os olhos postos no Oeste, ou Norte, ou tudo o que nao for Este, que e' onde se pode cruzar com o meu olhar. E' enervante, no minimo. E' claro que outra coisa e' olhar e sorrir para um estranho, na rua. Mas, como comentava uma amiga minha, faz-lhe falta dar e receber um olhar e, ainda melhor, um sorriso, pela estrada fora. Porque ate' ha alturas em que estranhos se olham, se sorriem, cumplices. Fizemos uma lista de items que provocam tal fenomeno:

1) flores - sempre achei que nunca me assaltariam se andasse com um bouquet de flores, mesmo pelas ruas mais escuras, que provocaria apenas um olhar, um sorriso e, ate' mesmo, um comentario simpatico. Apesar de ja' me ter acontecido algumas vezes, nao tentem isto, nao e' 100% seguro. Em Inglaterra nao me parece funcionar muito bem;
2) bebes (leia-se, "behbehs") - cutchicutchi, toda a gente a sorrir, a trocar olhares, a palrar. Em Inglaterra ha' muitos bebes a serem transportados para todo o lado (os pais levam-nos mesmo para todo o lado). O transito de carrinhos de bebes 'as vezes e' tal que, por vezes, acabam por ter o efeito contrario (grande carranca na loja de roupa apinhada de gente e de carrinhos de bebes descontrolados);
3) caes/gatos, sobretudo se forem bebes (ver ponto 2) - como nunca vi ninguem aqui a passear gatos, fiquemo-nos pelos caes. Mas, tambem estes, podem despertar fenomenos contrarios aos descritos (olhares, sorrisos...);
4) bolas de sabao - este item funciona universalmente, penso eu. Mesmo que nos deem um raspanete por estarmos a salpicar tudo com detergente, e' um raspanete docil (e ha' cruzar de olhar):
5) neve - adicionei eu este item 'a lista ontem (ver post da Maria de 29/01/04). Pelo menos, no primeirop dia de neve, resulta a 200%. Fotografos de ocasiao trocam sorrisos cumplices infantis. Fala-se com estranhos, o que, neste pais insular, e' rarissimo. Todos os olhares se cruzam.

And what kind of smile are you?

Cheerful
You're the cheerful smile,the one that's truly
happy with almost everything you do and would
never cahnge your life.


What Kind of Smile are You?
brought to you by Quizilla

quarta-feira, janeiro 28, 2004

Muito se poderia dizer sobre o Blair Rich Project...

...que e' como quem diz, a proposta de aumento das propinas feita pelo governo Blair. Ganhou ontem o Blair Rich Project, por meia duzia de votos, o que, segundo alguns comentadores, nao contribui positivamente para a imagem de Tony, que anda um bocadinho em baixo. Vai dai, o Primeiro Ministro Ingles decidiu (TENHO A CERTEZA QUE FOI ELE) que hoje iria nevar em grande parte da UK. E eu hoje, sendo uma presa facil, em vez de discutir politica, ponho-me a falar de neve, a tirar fotografias 'a neve ('as 7.30 am, GMT), a brincar com a neve e a sorrir para toda a gente (que, hoje e so' mesmo hoje, sobriamente me sorri). O que e' que querem, nunca tinha visto um gato-de-neve 'a entrada de um college!! Para voces, meridioes, que nao podem ir para 'a rua atirar bolas de neve e alienar-se das coisas serias (inbeja? eheheheheh!):

Vejam isto: Snow Art

E brinquem com isto: http://www.alloftheabove.net/cahr/fun_stuff/calvinhobbes.zip (Fun stuff: Calvin VS Snow Goons Game)

terça-feira, janeiro 27, 2004

A plastica do Berluscao

Em relacao a isso, so' tenho uma coisa a dizer, que me mandaram hoje por email:

"Os politicos e as fraldas precisam de ser mudadas frequentemente...
...pelas mesmas razoes." (Anonimo)

segunda-feira, janeiro 26, 2004

Gato escondido com o rabo de fora...

...ou "Mãe é mesmo verdade... fui aos anos do Nuno a Condeixa e não a VFX"
(e eu a pensar que a minha mãe não lia o meu Blog)



A Tangerina

Galinhas preferem beldades



Ainda os Ig Nobel prizes (ver post da Maria de 23/01/2004)...

Realizou-se, na passada Sexta-feira, um inquerito aos vizinhos da Travessa sobre qual dos dos premios ignobeis de 2003 mais profundamente tinham alterado as suas vidas. 100% dos inquiridos (N = 3 ou 4) respondeu que foi isto que os fez mudar as suas vidas e a sua concepcao sobre o universo (que, agora, faz todo o sentido): Ghirlanda, S., Jansson L., Enquist, M. (2003). Human Nature, 13 (3): 383-389. (obrigada pelo link, .batata da ribeira)
Pela sua importancia cosmologica e teologica, aqui vai um cheirinho da descoberta:

Abstract
"We trained chickens to react to an average human female face but not to an average male face (or vice-versa). In a subsequent test, the animals showed preferences for faces consistent with human sexual preferences (obtained from university students). This suggests that human preferences arise from general properties of nervous systems, rather than from face-specific adaptations. We discuss this result in the light of current debate on the meaning of sexual signals, and suggest further tests of existing hypotheses about the origin of sexual preferences."

Relógio

Muito haveria para dizer sobre o meu fim de semana, mas... nem sei muito bem por andei, perto de Condeixa estive, pois saí aí na Autoestrada 1.
Mas não é sobre isto que eu quero escrever!

Quando regressei e liguei o rádio dei com a notícia que um jovem futebolista da minha idade morrera assim, sem dizer ai nem ui. Senti-me arrepiada, não devido ao facto de estar próxima do jovem, mas por ele ter a MINHA IDADE.
A azáfama do dia, o corre corre do trânsito e as chatices foram tão insignificantes quando pensei que poderia ser EU que também num relvado do mundo tinha ido de desta para melhor (ou pior).
Fiz a A1 pensativa, ouvi os comentários que se fizeram e tinha acabado de sair de Coimbra na exacta hora da sua morte oficial: 23.10h. Como por vezes o peso do relógio é tal que nem o conseguimos suportar ou, como a rotação da vida faz com que uns morram e outros partam num movimento incessante de chegar o mais rápido a casa, com o coração saltitante e tristes por, afinal termos deixado para trás alguém de quem amamos... Nessa mesma hora, alguém estava a ser dado como morto!

A Tangerina

sexta-feira, janeiro 23, 2004

Hoje senti-me assim quando acordei:



A Tangerina

Ignobilizados

Aqui esta’ food for thought para o fim-de-semana. Imprimam isto e divulguem. Riam-se, riam-se! E depois parem para pensar..

Os premios Ig Nobel celebram e premiam (la’ esta’!) o desenvolvimento do conhecimento que primeiro faz as pessoas rir e so’ depois e’ que as faz pensar. A 13a. cerimonia de atribuicao dos premios ignobeis decorreu na Universidade de Harvard, em Outubro de 2003, diante de 1200 espectadores. Este evento e’ organizado pela revista humoristica Annals of Improbable Research (AIR). Os vencedores de 2003 incluiram:

Engenharia: John Paul Stapp, Edward A. Murphy, Jr. (falecido) e George Nichols, por conjuntamente, em 1949, terem desenvolvido a Lei de Murphy, o pricipio basico de engenharia que diz que “se ha’ 2 ou mais formas de fazer algo, e uma dessas formas pode resultar numa catastrofe, entao alguem escolhera’ essa forma. Mais simplesmente, “se alguma coisa puder correr mal, correra mal”. Esta e’ a minha descoberta preferida, ou nao fosse eu uma das pessimistas mais optimistas que anda para ai (dito pela minha prima gemea).

Fisica: Jack Harvey, John Culvenor, Warren Payne, Steve Cowley, Michael Lawrance, David Stuart e Robyn Williams (Robyn com y, nao e’ esse Robin que estao a pensar, suas teenagers com disturbios hormonais!!!), da Australia, pelo seu relatorio irresistivel “An Analysis of the Forces Required to Drag Sheep over Various Surfaces” (Applied Ergonomics, vol. 33, no. 6, Novembro 2002, pp. 523-31). Ora ai esta’ uma descoberta que pode revolucionar o estilo de vida de todos nos.

Medicina: Eleanor Maguire, David Gadian, Ingrid Johnsrude, Catriona Good, John Ashburber, Richard Frackowiak e Christopher Frith, da University College of london, por apresentarem provas de que os cerebros dos taxistas londrinos tem areas mais desenvolvidas do que os restantes londrinos. (“Navigation-Related Structrural Change in the Hippo-Campi of Taxi Drivers”, Proceedings of the National Academy of Sciences, vol. 97, no. 8, Abril 11, 2000, pp. 4398-403.) Enfim, taxistas e londrinos, essas estirpes fantasticas, que dizer?

Psychology: Gian Vittorio Caprara e Claudio Barbaranelli da Universidade de Roma, e Philip Zimbardo daUniversidade de Stanford, por terem descoberto uma grande verdade: “Politicians’ Uniquely Simple Personalities” (Nature, vol. 385, Fevereiro 1997, p. 493). Hmm…ja’ desconfiavamos…

Quimica: Yukio Hirose da Universidade de Kanazawa, pela investigacao quimica a uma estatua de bronze, na cidade de Kanazawa, que NAO atrai pombos. Ja estou a ver as potencialidades comerciais disto: shampoo Kanazawa (com extracto de bronze de Kanazawa), para cabecas urbanas. A serio, seria a primeira pessoa a proteger-me dos dejectos dessa praga alada!

Literatura: John Trinkaus, da Zicklin School of Business (nao traduzo, nao me apetece), Nova Iorque, pela recolha meticulosa de dados e por publicar mais de 80 artigos sobre coisas que chateiam ou que sao anomalas no dia-a-dia, tais como: a percentagem de miudos que usam bones de baseball ao contrario; percentagen de pedestres que usam tenis brancos, em vez de tenis coloridos; percentagem de automobilistas que nao param completamente num sinal de stop; percentagem de estudantes que nao gostam de couves de bruxelas; e outras perolas. Sinceramente, nao percebo como e’ que nao se possa gostar de couves de Bruxelas; ja’ o resto, parece-me tudo normal…

Economia: Karl Schwarzler e a nacao de Liechenstein, por possibilitarem o aluguer de todo o pais para reunioes empresariais, casamentos, bar mitzvahs e outros tipos de agrupamento social.

Interdisciplinar: Stefano Ghirlanda, Liselotte Jansson e Magnus Enquist, da Universidade de Estocolmo, pelo seu relatorio, ha’ muito esperado, “Chickens Prefer Beautiful Humans.” (Human Nature, vol. 13, no. 3, 2002, pp. 383-9). Esta’ explicado o assedio a que tenho sido sujeita estes anos todos! (piada inevitavel).

Paz: Lal Bihari, de Uttar Pradesh, India, por 3 realizacoes: 1) por levar uma vida activa, mesmo tendo sido declarado legalmente morto; 2) por ter levado a cabo uma campanha contra a inercia burocratica e familiares gananciosos, 3) por criar a Associacao das Pessoas Mortas. Ai, ganda homem!

Biologia: C.W. Moeliker, do Natuurmuseum Rotterdam, Holanda, por documentar o primeiro caso de necrofilia (Nota: fazer sexo com defuntos) numa especie de pato, recolhido cientificamente. (“The First Case of Homosexual Necrophilia in the Mallard Anas platyrhynchos (Aves: Anatidae)” C.W. Moeliker, Deinsea, vol. 8, 2001, pp. 243-7. Sem comentarios…:-p

Falta-me o ar- Capítulo II

13 de Julho
Hoje foi um dia muito mais excitante do que eu previa, tendo em conta as circunstâncias. Para começar, recebi dois longos telegrama-carta, um do Walter e outro do Gordon Flint. Não consigo perceber como é que o Walter teve coragem para escrever aquilo, estava lá tudo e deve ter sido muit embaraçoso para ele ouvir a menina do telégrafo a reler aquilo enquanto contava as palavras; isto para já não falar do embararaço da própria menina.
Mas o do Gordon foi uma espécie de choque. Acaba de chegar de uma viagem à volta do mundo, tinha partido em Dezembro passado e voltou ontem, e telefonou lá para casa e a Helga deu-lhe a minha direcção e o telegrama dele, bem, era quase tão terrível como o do Walter. O problema é que o Gordon e eu namorávamos quando ele partiu, pelo menos era o que ele pensava, e nunca deixou de me escrever enquanto esteve fora, telegramas, cartas, e essa coisa toda e durante algum tempo respondi-lhe às cartas mas depois perdi-lhe o rasto e deixei de escrever e quando fiquei verdadeiramente noiva do Walter não pude informar o Gordon, primeiro porque não fazia ideia de por onde ele andava e, depois, porque também não queria estragar-lhe a viagem.
E agora ele continua a pensar que ainda somos namorados e vai telefonar-me amanhã de Chicago e que hei-de eu fazer para lhe explicar e fazê-lo entender a situação, porque ele é uma pessoa como deve ser e eu gosto muito dele e em muitas coisas ele até é melhor que o Walter, bem, melhor não, mas é mais bonito e não se pode comparar a maneira como dançam. O Walter, pura e simplesmente, não consegue aprender a dançar decentemente. Diz que é por ter o pé chato, diz isto em jeito de piada mas é mesmo verdade e quem me dera que não fosse.
Passei a tarde inteira a pensar e a congeminar no que dizer ao Gordon quando ele telefonar e finalmente não aguentei pensar tanto e resolvi que não ia pensar mais no assunto. Mas hei-de dizer-lhe a verdade embora me mate a ideia de o magoar.
Desci para almoçar com os meus tios e eles iam jogar golfe esta tarde e insistiram para que fosse com eles mas eu disse-lhes que me doía a cabeça e depois tive que fazer um esforço imenso para os convencer a ir sem mim. Não tinha dor de cabeça coisa nenhuma, o que queria era ficar sozinha para pensar no Walter e, além disso, quando jogo com o Tio Nat ele passa o tempo a corrigir-me a posição ou o swing e está sempre a pôr-me as mãos nos braços ou nos ombros para me mostrar a forma correcta de jogar e eu não suporto que velhos me toquem, mesmo quando são meus tios.
Vi-me finalmente livre deles e estava sentada a ver o jogo de ténis quando o rapaz de ontem à noite, o bonitão, se veio sentar ao meu lado e é claro que não olhei para ele. Mas acabámos por meter conversa e ele é ainda mais bonito do que parecia e acho que é a pessoa mais original e divertida que alguma vez conheci e não sei há quanto tempo não me rio tanto.
Para começar perguntou-me se eu conhecia a canção do Rockefeller e eu disse que não e ele pôs-se a cantar " Oil alone...". Depois perguntou.me se conhecia a do sumo de laranja, e eu voltei a dizer que não e ele disse " Oranje juice sorry you made me cry". ainda não estávamos juntos há dez minutos e eu já estava histérica de tanto rir.
Chama-se Frank Caswell, saiu de Dartmouth há um ano e tem 24 anos. Não é assim muito velho, tem só mais dois anos que o Walter e mais trê que o Gordon. Odeio o nome Frank, mas Caswell passa perfeitamente e ele é tão bonito!
Esteve na Califórnia no Inverno passado e conheceu toda a gente e é fascinante ouvi-lo. Conheceu a Norma Shearer e disse que pensava que ela era a coisa mais bonita que alguma vez vira. Disse:" Pensava que ela era a rapariga mais bonita do mundo, até hoje." Eu ia fazer de conta que não tinha percebido mas acabei por lhe dizer que tivesse juízo, senão nunca mais acreditava em nada do que ele dissesse.
Bem, ele queria que eu fosse dançar com ele hoje à noite, depois do jantar, e o problema que se punha a seguir era explicar ao tio Nat e à tia Jule como é que nos tínhamos conhecido. O Frank disse que tratava do assunto e é claro que conseguiu ser apresentado ao tio Nat quando este voltou do golf e, depois do jantar, o tio Nat apresentou-o a mim e à tia Jule e dançámos toda a noite. Eu, a tia Jule não. Foram para a cama, graças aos céus!.
Dança divinamente, tão bem como o Gordon. Estávamos a dançar e, às tantas, a orquestra, num dos encores, pôs-se a tocar " In a cottage small by the waterfall" e aí nao consegui dançar ao som daquela música. Parei e disse ao Frank " Ouve, não aguento, estou com falta de ar." e o pobre do Frank julgou que eu estava doente ou coisa que o valha e aí tive que explicar que aquela música era a que a orquestra tinha tocado na noite em que fiquei numa mesa ao lado da do Jack Barrymore no Barney´s Gallant.
Obriguei o Frank a sentar-se enaquanto tocavam aquele encore e não o deixei falar antes de acabarem. Depois tocaram outra coisa e fiquei outra vez bem e o Frank contou-me como tinha conhecido o Jack Barrymore. Imaginem, conhecê-lo! Eu morria!
Tinha prometido à tia Jule ir para a cama às onze e as onze onde é que elas vão?! mas agora estou pronta para me deitar, só estive a escrever isto. Amanhã o Gordon vai falar-me e que vou dizer-lhe? Agora não vou pensar nisso.

quinta-feira, janeiro 22, 2004

Pela incansavel ajuda na demanda do Santo Graal...

...aqui vai, querido vizinho vertiginoso, como prometido, um cheirinho a Cartuxa. The best for the best!

Cartuxa Tinto Reserva 1996 75cl, Alentejo
From the producers of Pera Manca, the Cartuxa Reserva is only made in very good years. Made from Trincadeira and Aragon grapes, it was aged in american oak barriques before being bottled. This is a mature red wine with aromas of red fruits, cedarwood, and liquorice. On the palate it develops powerfully to reveal a rich complexity of aged fruit flavours with a long lingering finish.
(texto retirado daqui)

Uma nova produção da travessa...

...numa porta perto de si.

Como as palavras ainda não abundam e sinto-me tão sem conteúdo como um livro da Margarida Rebelo Pinto, continuamos a dar destaque à fabulosa programação facultada pelas Comadres Maria e Tangerina, assim como à habitual programação matinal. Assim sendo e depois de consultada a Alta Autoridade para Folhetins Bloguiográficos, decidiu-se que entre o " Tradutor Cleptómano" e a " Puta de Mensa" haveria de ganhar....." Falta-me o ar!" da autoria de Ring Lardner.

( Entra o genérico cantado por Toy, onde se conta uma história trágica qualquer, aqui e ali salpicada com um gorgolejo simulador de dor intensa. Não esquecer a aparição rápida de um mamilo)

Falta-me o ar- Capítulo I

12 de Julho
Estou aqui na estalagem a passar duas semanas com o tio Nat e a Tia Jule e acho que vou escrever uma espécie de diário enaquanto cá estou para ajudar a matar o tempo e, também para tomar nota das coisas que aconteceram embora seja pouco provável que aconteça alguma coisa, pelo menos alguma coisa excitante, com os meus tios a organizarem os programas, eles que já têm pelo menos 35 anos e se calhar até mais.
Os meus pais foram passar um mês ao estrangeiro e consideraram que eu vir para aqui era uma compensação por não me terem levado. Bela compensação, umas férias com uns velhotes que vêm para sítios destes para repousar! Apesar de que, noutras condições, até podia ser paradisíaco, por exemplo, se o Walter cá estivesse. Era divino se ele estivesse cá, só de pensar nisso o meu coração pára.
Não aguento. Não vou pensar nisso.
É a primeira vez que estamos separados desde que começámos a namorar, há quase 17 dias. Faz amanhã 17 dias. E hoje, ao jantar, a orquestra tocou aquela coisa antiga " Oh how I miss you tonight" e foi como se estivesse a tocar para mim, só que nessa canção a pessoa está a falar das saudades que tem da mãe, é claro que eu também tenho saudades da minha mãe, mas a gente habitua-se a ter saudades das mães, não é nada como ter saudades do Walter ou da pessoa de quem se está noiva.
Mas, para todos os efeitos, as separações não tardam a acabar porque vamos casar em Dezembro por muito que a minha mãe se ria quando falo nisto e diga que estou doida se penso que vou casar antes dos 18 anos.
Ela própria tinha 18 anos quando se casou mas, claro, era "diferente", não era uma doida como eu e, além disso sabia com quem ia casar. Como se o Walter fosse um polícia ou um estrangeiro ou coisa que o valha! E a minha mãe diz que só namorou uma vez enquanto eu desde os 14 anos,tenho pelo menos cinco namorados por ano, é claro que não é assim tanto como ela diz e a verdade é qe namorar, namorar mesmo, só foram aí umas seis vezes ao todo e na realidade a culpa não é minha, eles é que insistem e me matraqueiam a cabeça e enquanto eu não disser sim não me largam a porta.
Mas com o Walter é diferente. Estou mesmo convencida de que se ele não me tivesse pedido, pedia-lhe eu. Não, não era capaz de fazer tal coisa, mas morria de tristeza. E é a primeira vez que namoro mesmo para casar. Das outras vezes, sempre que eles perguntavam quando casávamos, eu ria-lhes na cara mas, desta vez, ainda não namorava com o Walter há cinco minutos e já ele estava a mencionar o assunto casamento e eu não me ri. Não podia namorar com o Walter se não fosse para casar. Não aguentava.
Seja como for, é melhor que a minha mãe se vá habituando à ideia porque desta vez é a "Sério" e já fizemos os nossos planos e vou casar em casa e, depois, vamos de lua de mel para a Califórnia e Hollywood. Em Dezembro, daqui a cinco meses. Nã aguento. Não consigo esperar.
Hoje à noite estavam na sala de jantar dois rapazes sentados sozinhos a uma mesa, muito bem parecidos. Um deles nã era assim tanto, mas o outro era de estarrecer. E ele...
A orquestra estava a tocar " Always", a mesma música que estava a tocar no Biltmore no dia em que conheci o Walter. "Não é so por uma hora, não é só por um dia, ...". Não consigo viver. Falta-me o ar.

quarta-feira, janeiro 21, 2004

Nem a roubar sou original!

Os barnabes tambem roubaram a imagem ao Ivan. Mas o Ivan, por sua vez, tambem foi roubar a imagem aqui.

Somos todos piratas com perna de pau (olho de vidro e cara de mau).

Roubei esta imagem ao Ivan



Ai ele e' isso? E' para o lado que eu durmo melhor...

So' nao como criancinhas ao pequeno-almoco. Na verdade, raramente tomo o pequeno-almoco.

terça-feira, janeiro 20, 2004

SPAM

...ou "Aumente o seu pénis, pergunte-me como!"

Não é que recebo um junk mail destes todo o santo dia?


A Tangerina

Como e' bom ruminar!!



Conforme prometido ontem: uma ode 'a pastilha elastica.

Sou um primata ruminante. Nao saio de casa sem as minhas pastilhas elasticas e adoro mastiga-las. Pelos vistos, parece que nao sou so' eu e ja' os nossos primos hominineos pre-historicos o faziam, embora ruminassem uma "pastilha" com menos graca, feita de resina de arvore, sem corantes nem conservantes. Nem sequer dava para fazer bolas! Ah, como era bom fazer super-bolas com duas ou tres Super-Gorilas!! Isso e' que era um hobby! Isso e' que era elasticidade bochechal (bochechas...)! Infancia boa...
Bom, isto tudo porque outro dia estava a ler a revista de bordo da British Airways (edicao de Dezembro de 2003) e la' vinha uma cronica de um tipo a falar de uma serie de proibicoes em Singapura e das respectivas multas para os nao cumpridores da lei. Sabiam que ate' ha' pouco tempo nao se podia mastigar pastilhas elasticas em Singapura? Que os faltosos apanhados em flagrante tinham de pagar 500 dolares? Que, alias, era proibida a venda da bela da pastilha? Ruminantes de todo o mundo que queiram/tenham de ir a Singapura suspirai de alivio, pois agora ja' se pode ruminar 'a vontade. Bom, tambem 'a vontade, 'a vontade, nao e' bem assim!! So' se pode comprar pastilhas elasticas na farmacia e têm de ser "saudaveis", isto e', sem acucar ou daquelas com nicotina, para se deixar de fumar.

Mas a que proposito esta peculiar proibicao? Parece que nao agradava nada ao governo singapuriano ver pastilhas elasticas largadas por todo o lado, coladas a postes, no chao, etc. Sem meias medidas, tunga, corta-se o mal pela raiz! Engracado tambem, sobretudo para um portugues, saber que em Singapura e' proibido cuspir no chao, e que a multa e' tambem de US $500. Como reparou um doutorando em Matematica, essa medida em Portugal acabaria de vez com o defice. Que rapaz esperto. Por que e' que a nossa Manela F.L. ainda nao se lembrou disso?

segunda-feira, janeiro 19, 2004

Ainda na linha do amor

Este fim de semana, na companhia do querido Green, da lindíssima Ba-ta-ta e do Zé Miguel (que ainda não tem blogue porque ainda não sabe falar), passei pelo Amo.te Porto.

Egocêntrica como me ando a tornar, pensei seriamente em registar um "Amo.te Tangerina". Não seria um bar nem nada do género, mas acharia engraçado a malta toda a dizer... "amo-te Tangerina", "amo-te", "amo-te",...

"Prontes", sei lá... era engraçado!

A Tangerina

Ditos populares

"Um gesto vale por mil palavras"

Mas sem palavras como pode algum dia um gesto valer qualquer coisa?!?

Ando intrigada!

Poderemos demonstrar amor só por gestos? Mas... e o sabor que tem ouvir um "amo-te" ao ouvido?

A Tangerina

O celibato e as pernas de mesa



Hoje sentia-me com vontade de falar em pastilhas elasticas, um bom tema para comecar a semana: facil, descomprometido, nao polemico, galhofeiro, relaxado, stress-releaser, enfim, tudo o que e' preciso para aguentar uma segunda-feira de obrigacoes. Mas nao consigo deixar e pensar num documentario que vi na semana passada, no Channel 4 britanico, sobre o celibato na Igreja Catolica Apostolica Romana (ICAR). Embora ja' soubesse que a "historia" do celibato obrigatorio na ICAR fosse recente e imposta por razoes mais pragmaticas do que se possa 'a primeira imaginar, agora tenho uma data - 1139 a.D. So' a partir de 1139 da nossa era e' que o celibato foi imposto a toda a hierarquia eclesiastica da ICAR. As razoes? Fala-se nos "3 P": progeny, property, power. O dinheiro/propriedades da ICAR deveriam permanecer na ICAR e nao serem divididos pela prole que padres, bispos, etc., tivessem. Mas a razao que me fez estremecer mais foi a questao do poder. Dizia um padre estudioso, praticamente excomungado, que quem (ou o que) consegue controlar a sexualidade de alguem, e' alguem (algo) muito poderoso. Controlar a sexualidade de alguem e' controlar a energia mais poderosa do ser humano. Essa energia tem de ser redireccionada para outro lugar qualquer, umas vezes para "lugares" mais socialmente aceites do que outros. Estudos provam que a bioquimica cerebral do "fervor religioso" nao difere muito da do "fervor sexual" (chamemos-lhe fervor...).

Este documentario fez-me lembrar de um livro de Vergilio Ferreira, que li ha' tempos. Li "Manhã Submersa" com vontade e "fervor" porque, "no meu tempo", nao era literatura obrigatoria para a disciplina de Portugues. Lembro-me que uma das muitas passagens que me provocaram arrepios foi aquela onde Vergilio Ferreira descreve a agonia/embaraco de um jovem seminarista (ele proprio?) ao ver a perna de uma mesa a ser inadvertidamente desnudada pelo padre-professor. A tensao sexual da cena e' descrita de tal maneira que provoca calafrios.

Amanhã falo da pastilha elastica.

Um amor oculto- capítulo IV e último

Vi a horível verdade. Leocadia era surda.
- Quê?- insistia
-Que também eu te amo com toda a alma!- repeti, gritando.
E arrependi-me em seguida, porque se viraram dez fregueses para me olharem, evidentemente incomodados.
- A sério que me amas?- perguntou, com essa maçadoria própria dos apaixonados e dos agentes de seguros de vida.
- Jura-mo?
- Juro!
- Quê?
- Juro!
- Diz lá que juras que me amas...
- Juro que te amo!- vociferei
Olharam-me com ódio vinte fregueses.
- Que idiota!-sussurrou um deles.- Isto é que se chama amar de viva voz.
- Então- seguiu a minha amada, alheia à tormenta-, não te arrependes de que eu tenha vindo a Madrid?
- De modo nenhum!- gritei, decidido a enfrentar tudo, porque me pareceu estúpido sacrificar o meu amor à opinião de uns senhores que falavam do Governo.
- E agrado-te?
- Muito!
- Nas tuas cartas dizias que os meus olhos eram muito melancólicos. Ainda achas?
- Sim!- gritei, como se estivesse a dar uma conferência na Praça de Touros.- Os teus olhos são muito melancólicos!
- E as minhas pestanas?
- As tuas pestanas, reviradíssimas!
- E a minha figura?
- Muito elegante!
Todo o café nos olhava. Todas as conversas se calavam, só me ouviam a mim. Nas montras começaram a ver-se transeuntes curiosos que contemplavam a cena.
- O meu amor faz-te feliz?
- Muito! Felicíssimo!
- E quando puderes abraçar-me?
- Quando puder abraçar-te hei-de crer que estreito ao coração todas as rosas de todas as rodeiras do mundo!
- E quando me beijares?...
- Quando te beijar hei-de crer que encontrei um manancial em que fluirão confundidasas águas mais puras e doces de todos os mananciais!
Não sei quanto tempo continuei, afrontando os rigores da opinião alheia. Sei que, por fim, aproximou-se um guarda.
- Faça o favor de não escandalizar- disse-me- Peço-lhe que o senhor e a menina abandonem o local.
Voltei-me para Leocadia.
- Põe-nos fora por escândalo.
- Por escândalo?- disse estupefacta.- Então mas es estamos num cantinho do café, contando-nos em voz baixa os nossos segredos...
Quando atravessámos o salão para sair, murmurou um paroquiano:
- Ouviram o que ela disse? Que enormidade! O que hão- de gritar eles lá em casa, quando estiverem sozinhos e ninguém possa entrar para os fazer calar!...
Passado um mês, todo o Madrid nos conhecia. O mesmo aconteceu em Bordéus, em Paris, em Marselha e em Londres.
Há quinze dias que estamos em Buenos Aires, e já planeamos a mudança para o México.

FIM

sexta-feira, janeiro 16, 2004

Uma cadela...


ou o maior dos beijos para a minha comadre Paula pelo nascimento do seu rebento!



BIBIS
A Tangerina

quinta-feira, janeiro 15, 2004

Um amor oculto- capítulo III

Deteve-se um táxi à entrada do café. Agilmente- é muito difícil fazê-lo agilmente- desceu Leocadia. Outro qualquer ter-se-ia apressado a sair e pagar ao condutor, mas eu sou homem do meu tempo e não costumo ocupar-me de bagatelas. Além disso, se todos os que esperam alguém tivessem que lhe pagar o táxi em que viera, todos os nossos amigos chegariam de táxi aos encontros e a boa circulação de veículos na capital perderia muito com isso.
Leocadia entrou no café levantando ao passar, por obra de sua acabada formusura, uma onde de requebros e ressuspiros masculinos.
Leocadia chegou ao pé de mim, estendeu-me as mãos com o sorriso mais celestial que olhos humanos já viram e deixou-se cair no divã com um chique indiscutível.
Pediu não me lembro o quê e falou-me dos nossos amores epistolares, de quão feliz pensava ser, como me amava já, ...
- Também eu te amo com toda minh'alma- disse-lhe, porque verdadeiramente assim era, pois até aí não tinha topado com mulher nenhuma que tivesse menos defeitos que ela.
- Que dizes?- perguntou.
- Que também te amo com toda a alma.
- Quê?
(...)

Encerro por aqui este capítulo porque parti uma unha no teclado. Raios!!!

Bem Vindas, comadres!!!!!

quarta-feira, janeiro 14, 2004

A Fruta voltou, a Flores tambem!



Desejos de um optimo ano 'as comadres, vizinhos e turistas ocasionais da Travessa.
"Oh, p'ra esta, ja' vamos em meados de Janeiro e continua a dar-lhe com os votos de bom ano e mai'-nao-sei-que!!!"
Pois.
O tempo (parco) e a preguica (paletes dela) nao me deixam agradecer a toda a gente que mereceria. Nem sequer actualizo links nem nada, sou uma desgraca! Ao contrario de mim, este rapaz do blog do meu cao preferido (o Snoope e o Sebastiao-do-Bell-e-Sebastiao estao, respectivamente, em segundo e terceiro lugares) esmera-se no seu post de 31/12/2003. Nao mereco, a serio...

A ver se e' desta que eu inicio o tal do 2004.

Olaré... olha quem é ela:



A TANGERINA VOLTOU!
(brevemente, numa Travessa perto de si).

A Tangerina

terça-feira, janeiro 13, 2004

Um amor oculto- Capítulo II

A minha amada desconhecida chegaria a qualquer momento.
Amávamo-nos por carta desde a Primavera anterior. Excepcional Leocadia! Seu doce amor enchera a taça de meus anseios, como dizem os autores de libretos para zarzuelas.
Sim. Estava muito apaixonado pela Leocadia. As suas cartas, cheias dessa graça terna, elegante e inconfundível que põem nos seus escritos as pessoas de verdadeiro talento, tinham sido lugar geométrico de todos os meus beijos. À força de falar com ela só por escrito, chegara a temer que nunca lhe falaria vis-à-vis. Sabia por vários retratos que me enviou que era bonita como uma mulher bonita, e elegante como uma mulher elegante. Mas no Livro de Caixa do Destino estava escrito em letra redonda que Leocadia e eu nos veríamos por fim frente a frente; e a sua última carta, anunciando a sua chegada e marcando-me encontro naquele café moderno- onde era imprescíndivel aguentar os cinco chatos da orquestra- colocara-me no Empíreo, primeira cadeira à direita.
Deteve-se um táxi à entrada do café. Agilmente- é muito difícil fazê-lo agilmente- desceu Leocadia.

Na, na, na. Vamos deixar o nosso namorado apardalado mais um tempinho à espera. Afinal, os cavalheiros da orquestra merecem uma oportunidade.

segunda-feira, janeiro 12, 2004

À falta de algo melhor para dizer...

...continuarei a "roubar" palavras de outros para, espero, vosso deleite.
Assim sendo, apresento a nova aquisição da Travessa, desta vez de terras ibéricas. Totalmente dobrada em português e com aquela magnífica dessincronização entre a palavra dita e a ouvida. Tem tudo, portanto, para ser mais um retumbante êxito!!!

Senhoras e senhores, a Travessa orgulha-se de apresentar,
..........
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( violinada trágica)

UM AMOR OCULTO, de Enrique Jardiel Poncela
Capítulo I

A emoção mal me deixava comer o gelado de chocolate que tinha pedido ao empregado. Durante três longas horas fiz todas aquelas operações que denotam a impaciência em que se submerge uma alma: consultei o relógio, dei-lhe corda, consultei-o de novo, dei-lhe novamente corda e, por fim, fiz-lhe saltar a corda; sacudi umas carrapetas do feltro do chapéu; sacudi outras carrapetas do fato; revistei dezoito vezes todos os papéis da minha carteira; tantatarei quinze coplas e duas romanzas; li três jornais, sem compreender nada do que diziam; meditei, mexi a cabeça, afastando meditações, e logo voltei a meditar; rectifiquei repetidamente o penteado e o vinco das calças; fiz festas a um cão,propriedade de um paroquiano finíssimo; calculei os quilos de amendoins que comem por anos os meninos madrilenos e fiz girar a corda do relógio até perceber que estava estragada e que não haveria qualquer incoveniente em fazê.la girar um mês inteiro. Oh! Havia uma razão que justificava tudo isto.

E qual seria, caros leitores? Será que aguardava o anúncio da alteração ou não da taxa de juro? Estaria à espera de saber o resultado do jogo grande da semana, por via da TV Cabo estar com deficiências técnicas? Amanhã há mais...
( violinada trágica)

quarta-feira, janeiro 07, 2004

Chichibio- Folhetim bloguiográfico, capí­tulo IV e derradeiro

Mas chegados que foram perto do rio, aconteceu logo verem na margem uma boa dúzia de grous, todos repousando num pé, tal como costumam fazer quando dormem; pelo que ele prestamente os mostrou a Currado, dizendo:"Podeis agora ver bem, senhor, que é verdade o que ontem à noite vos disse, que os grous não têm mais que uma coxa e um pé, se olhardes aqueles que ali estão."
Vendo-os, disse Currado: " Espera que já te mostrarei que têm duas" e chegando-se a eles quanto podia, gritou: " Oh!Oh!", e com tal grito os grous, baixando o outro pé, depois de uns quantos passos, todos começaram a fugir; com que Currado voltando-se para Chichibio disse:"Que te parece, farsante? Vês que têm duas?"
Chichibio ficara quase quedo e, sem saber ele próprio de onde lhe vinha, saiu-se com a resposta:" Senhor, sim, mas ontem à noite vós não gritásteis 'Oh!Oh!'; que se assim tivésseis gritado também ele teria posto de fora a outra coxa e pé, como estes o fizeram."
Esta resposta agradou tanto a Currado que toda a sua ira se converteu em festa e riso, e disse:" Chichibio, tens razão: devia tê-lo feito."
Assim, pois, com a rua resposta pronta e graciosa, Chichibio esquivou-se à má sorte e ficou em paz com o senhor.

E assim termina admiráveis leitores o nosso primeiro folhetim bloguiográfico. Sem sexo ( se bem que eu sei que só continuaram a acompanhar o folhetim na esperança de saber das verdadeiras intenções de Dona Brunetta, malandros.). Sem violência. Uma história limpinha. Que tal? Estão prontos para o próximo?Aliás, querem um próximo? Você decide!

Nota Importante: O folhetim aqui apresentado é da autoria de Giovanni Boccaccio.
Nasceu em 1313, em Paris, tendo crescido e estudado em Florença, onde viria a conhecer Petrarca de quem foi amigo. Morreu em 1375, em Certaldo, na terra da família.
O livro que imortalizou Boccaccio foi indubitavelmente o Decameron de onde foi retirado o conto aqui apresentado.
O Decameron, que Boccaccio concluiu em 1353, começa com uma descrição dos terríveis efeitos da peste, e a apresentação de um grupo de sete damas e três homens reunidos numa villa no arredores de Nápoles, onde se refugiaram para escapar à epidemia. Durante os dez dias que aí passam cada um conta uma história aos outros, reunindo-se deste modo as cem histórias que compõe o livro.
Este cem contos percorrem todos os registos, da mais hilariante comicidade ao mais trágico dramatismo; da sensualidade mais primária à mais elevada espiritualidade. São também variadas as situações, as personagens, e o recursos linguísticos e literários utilizados, passando do dialecto ao vernáculo, do tom pícaro ao realismo rigoroso e à efabulação maravilhosa.
Este clássico da literatura medieval, hoje traduzido em quase todas as línguas europeias, recebeu uma nova vida em 1971 com o filme de Pasolini, baseado nas histórias de Boccaccio.

terça-feira, janeiro 06, 2004

Chichibio- Folhetim bloguiográfico, capítulo III

Por essa noite, as palavras, ficaram por ali, mas na manhã seguinte, assim que o dia surgiu, Currado, a quem com o dormir a ira não passara, e ainda estava cheio dela, levantou-se e ordenou que lhe trouxessem os cavalos; e mandando Chichibio montar numa pileca conduziu-o a uma ribeira, onde ao romper do dia era costume verem-se grous nas margens, dizendo-lhe: “ Cedo veremos quem terá mentido ontem à noite, se tu ou eu.”
Chichibio, vendo que durava a ira de Currado e que lhe convinha dar prova daquilo que mentira, e não sabendo como o poderia fazer, cavalgava ao lado de Currado com o maior medo do mundo, e de boa vontade, se tal pudesse, teria fugido;mas não o podendo, olhava ora adiante, ora atrás, ora ao lado, e tudo o que via lhe pareciam grous com dois pés.

Teria Chichibio feito a sua derradeira confissão? Será que Dona Brunetta havia apaziguado os temores de Chichibio? Será que o Engenheiro dura até final do Campeonato? E afinal que são grous? E isso come-se? Eventualmente o próximo capitulo responderá a estas e outras pertinentes questões.

quinta-feira, janeiro 01, 2004

Chichibio- Folhetim bloguiográfico, capítulo II

Por fim, Chichibio, para não atormentar a sua dama, arrancando uma das coxas ao grou, deu-lha.
Quando depois o grou sem coxa foi posto diante de Currado e de seu hóspede, e admirando-se Currado da novidade, mandou chamar Chichibio e perguntou-lhe o que acontecera à outra coxa. Ao que o veneziano, mentiroso, prontamente respondeu: " Senhor, os grous não têm senão uma perna e uma coxa."
Currado, agastando-se com isto disse: " Como diabo não têm senão uma perna e uma coxa? Não vi eu outrso grous senão este?"
Chichibio continuou: " Assim é, senhor, como vos digo; e quando vos aprouver eu vo-los farei ver vivos."
Currado por mor do hóspede que consigo tinha, não quis deixar-se levar pelas palavras, mas disse: " Pois que dizes que mos farás ver vivos, coisa que tal nunca vi nem ouvi dizer que houvesse, quero então vê.los pela manhã e ficarei então contente; mas juro.te pelo corpo de Cristo que, se assim não for, de tal arte te farei tratar que, enquanto por cá andares, osteus males te hão-de fazer lembrar o meu nome."

Como irá Chichibio provar ao seu senhor a existência de grous pernetas vivos? Terá entretanto Brunetta cumprido a sua promessa a Chichibio? Estaria o grou bem temperado? Hã?