Conversa na Travessa

sexta-feira, dezembro 05, 2003

QUANTO MAIS ESPERTO, MENOS INTELIGENTE

(Mas a recíproca não é verdadeira)

Na televisão, vejo e ouço a arenga de um político. Enquanto ele fala e gesticula, percebo sem surpresa que esse homem, por muitos considerado inteligentíssimo, continua obtuso como sempre foi — e agora talvez até mais. O episódio também me faz lembrar de que a diferença entre inteligência e esperteza não é tão amplamente percebida e entendida como deveria. Eis a razão das considerações que se seguem.

A relação entre a inteligência e a esperteza está ligada ao sistema de pensamento predominante em nossa cultura. Como sabemos, a maioria das pessoas tende a pensar em termos simplistas e busca a satisfação imediata. Esse imediatismo traduz o raciocínio de causalidade simples: se A vem com certa freqüência antes de B, A é a causa, B o efeito e ponto final. O processo se esgota aí. Esse padrão está ligado a outro — o raciocínio binário —, segundo o qual a relação entre A e B é unidirecional e excludente: A é igual a A e diferente de B, sem outra hipótese. Tudo muito simples e muito direto, portanto.

O indivíduo esperto percebe com nitidez esse nosso condicionamento, e não ignora que ele próprio também está submetido a tal modo de pensar. Sua esperteza consiste em intuir o quanto a prevalência desse modelo (que é necessário em certas circunstâncias, mas não é o único) é intelectualmente limitante e o quanto pode ser utilizado para manipular as pessoas. O esperto vê a si próprio como alguém que superou essa limitação e a respectiva susceptibilidade à manipulação (o que nem sempre se confirma na prática, como logo veremos). De todo modo, com base nessa convicção ele usa as limitações alheias em beneficio próprio.

A mentalidade binária fornece a base para uma de nossas crenças mais arraigadas — a de que os seres humanos se dividem em dominadores e dominados. Se assim é, aqueles são mais inteligentes do que estes, pois os controlam, obtêm sua obediência e deles extraem dinheiro que, como se sabe, para muitos é a causa de todos os efeitos, os quais por isso mesmo a ela devem ser sempre reduzidos.

Nessa ordem de idéias, o indivíduo esperto imagina-se poderosamente maquiavélico. Está convencido de que O Príncipe é uma espécie de texto sagrado do comportamento social. Não o comove nem um pouco o fato de que esse livro de Maquiavel sob muitos aspectos é uma ode ao jogo de soma zero (para que eu vença é necessário que você seja derrotado) e, por outro lado, uma elegia à solidariedade.

Pois essa talvez seja a principal limitação do esperto: pensar que não existe ninguém mais esperto do que ele — o que o condena a dificilmente contar com a ajuda da qual mais dia menos dia ele pode vir a precisar como decorrência de sua própria astúcia.

Vamos ao dicionário. “Esperteza: acuidade ou agudeza de espírito. Habilidade maliciosa. Inteligência superficial. Habilidade ingênua que facilmente se descobre”. Quando vê a possibilidade de obter alguma vantagem, o esperto diz às pessoas o que elas querem ouvir. Ao fazer isso, porém, ele cai em sua própria armadilha, pois as pessoas por sua vez também lhe dizem o que ele quer ouvir. Essa circunstância o põe numa posição que se continuada tende a embotar-lhe a inteligência.

É bem disso que se trata: o esperto se acha inteligente, o que o impede de desenvolver sua inteligência. Quanto mais inteligente ele se imagina, mais se deixa envolver por sua esperteza. Esse processo pode seguir num crescendo, que muitas vezes resulta na transformação da esperteza em obtusidade ou, o que é pior, em estupidez, no entender de alguns.

É próprio do esperto o seguinte raciocínio: se a utilidade “prática” (que para ele é quase sempre econômica) de uma idéia ou coisa não for imediatamente perceptível, é porque não existe. E assim essa idéia ou coisa entra para o rol dos trastes inúteis.

Quando levada a extremos, essa atitude faz com que a esperteza chegue à obtusidade, ultrapasse-a e alcance a estupidez. É a esse fenômeno que se dirige a crítica de Vítor J. Rodrigues, quando diz que “o dinheiro é um fim e deve ser atingido por meio dos homens, adequados instrumentos financeiros uns dos outros”1

O que Rodrigues chama de “estupidez financeira” compõe-se de pelo menos três categorias: a) estupidez financeira terminal, na qual o dinheiro é usado para tornar estúpidos os que o recebem. A corrupção, o suborno e o aliciamento são três exemplos; b) estupidez financeira de manutenção, em que a condição anterior se torna instituída, como ocorre nos governos corruptos, máfias e assemelhados; c) estupidez financeira metodológica ou consumista. Por meio dela, o dinheiro é utilizado para estupidificar de modo crescente os que o utilizam: “Os que têm dinheiro são meios para tenhamos mais dinheiro”.2

Mas não sejamos tão meticulosos. Voltemos ao campo da esperteza e lembremos que ela e a inteligência não são mutuamente excludentes, como poderiam supor os mais espertos. Ou seja: ninguém é só inteligente nem só esperto. O que há é uma combinação, na qual uma ou outra condição predomina em graus diferentes e em momentos diversos. É uma questão de proporções, portanto. Inteligência e esperteza estão em constante diálogo e as pessoas em cujas mentes esse diálogo acontece estão, por sua vez, em permanente conversa com o ambiente e com outras pessoas.

A esperteza é mais operacional e a inteligência mais estratégica. Logo, as duas são necessárias. A inteligência desenvolve a esperteza, mas o contrário só é verdadeiro até certo ponto. Desse ponto em diante, quanto mais astuto for um indivíduo menos inteligente ele será, pois a astúcia potencializa o ego e torna utilitários os relacionamentos interpessoais. Já a inteligência atenua o egoísmo e estimula as relações. E não poderia ser de outro modo, pois, como já vimos, a esperteza se apóia na causalidade imediata: uma causa, um efeito. A inteligência, porém, nos faz perceber que muitas vezes o efeito pode retroagir sobre a causa. Forma-se então uma circularidade, que se liga a outras circularidades e compõe uma rede, o que faz com que o pensamento assuma uma feição abrangente.

É por isso que enquanto o astuto se supõe inteligente e alardeia essa suposta virtude, o indivíduo inteligente sabe que há situações em que é necessário ser astuto — mas sabe também que isso tem um limite: a astúcia deve ser usada com moderação, com o mesmo comedimento que nos leva a não alardeá-la. É preciso dosá-la, pois se a inteligência desenvolve a ética a esperteza pode nos fazer ignorá-la.

Não fosse isso suficiente, a inteligência nos faz buscar o equilíbrio entre a razão e a emoção, enquanto que a esperteza tende a nos fazer pensar que a razão resolve tudo sozinha, isto é, a tentar reduzir a racionalidade ao racionalismo. Assim, a inteligência pode ser definida como a habilidade de não permitirmos que a esperteza nos suba à cabeça e atrofie nossa capacidade de perceber e entender que viver é viver em relação, fazer parcerias e com isso buscar a justiça social.

Confirmando o que consta dos dicionários (a esperteza é uma habilidade ingênua que logo se descobre), o esperto pode ser fácil de enganar. Como ocorre com o vaidoso (esperteza e vaidade freqüentemente andam juntas), muitas vezes basta louvar-lhe a sagacidade (ou alimentar-lhe a fatuidade, conforme o caso) para torná-lo dócil e manipulável — desde que a manipulação continue baseada nessa louvação.

No limite, a esperteza tende a anular a si própria e se transforma num primitivismo mental. Em não poucos casos esse é o ponto de partida para o total desprezo pelo outro — a psicopatia. Em muitos psicopatas famosos, o que se convencionou chamar de “inteligência brilhante” é na verdade o auge do delírio sociopático.

O dito que propõe que o mundo é dos espertos é revelador do quanto a esperteza pode se render à obtusidade. Nesse momento, ela põe à mostra o quanto é limitante e limitada. Esperteza produz esperteza, a qual por sua vez gera um estado de coisas hobbesiano, pleno de medo, paranóia e desconfiança. A situação do mundo atual, no qual o chamado progresso não impediu a proliferação da exclusão social, terror, violência, fome e situações semelhantes, é uma das melhores demonstrações das razões pelas quais esperteza é diferente de inteligência.

Um convite ao leitor: faça uma lista de pessoas que você sempre achou que fossem muito inteligentes. Reflita e verá que em muitas delas a esperteza predomina sobre a inteligência. Isto é, são indivíduos apenas espertos (e alguns francamente obtusos). Será uma conclusão quase natural, mas para que ela aconteça é necessário que você: a) se inclua na lista; b) seja mais inteligente do que esperto.

Como foi dito antes, confundir inteligência com esperteza é um engano corriqueiro mas — também foi mencionado — essa é a grande limitação do esperto. Ele percebe que existe um modo de pensar diferente do seu, mas o classifica como “cultura”, ou então como “poesia” ou “literatura”, isto é, coisas “não práticas”, que não “agregam valor”. É evidente que tal classificação é uma demonstração de sua pouca inteligência, pois é precisamente na literatura que estão alguns dos melhores exemplos da diferença entre uma coisa e outra.

Vamos a um deles. Trata-se do conto de Machado de Assis, Teoria do Medalhão, publicado em 1882 no livro Papéis Avulsos. Recordemos a história. Depois de um jantar comemorativo de seus 21 anos, um rapaz conversa com o seu pai que aproveita a ocasião para orientá-lo sobre a “vida prática”. Para tanto diz-lhe algumas “coisas importantes”, cujo objetivo é fazer com que o jovem saia da “obscuridade comum” e se torne um medalhão. Eis os principais pontos da receita do pai machadiano:

Idéias.
Melhor não tê-las.

Livrarias.
Nunca entrar nelas em busca de livros.

Linguagem.
Usar ao máximo “as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos”, pois elas “têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil”.3

Memória.
Decorar “toda a recente terminologia científica”.4
Visibilidade.

Usar ao máximo a propaganda: “Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo”.5

Política.
“Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma idéia especial a esses vocábulos.”6

Imaginação.
“Nenhuma imaginação?”
“Nenhuma; antes fazer correr o boato de que um tal dom é ínfimo”.7

Filosofia.
“Nenhuma filosofia?”
“Entendamo-nos: no papel e na língua, alguma, na realidade nada. (...) Proibo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. (...) Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.).”8

E por aí vai, até que o pai arremata dizendo que “guardadas as proporções, a conversa desta noite vale O Príncipe de Machiavelli”.9 Ninguém menos que Maquiavel, claro. Sempre ele. Ou então Hobbes. Em suma, o que o personagem de Machado propõe ao filho é que para “vencer na vida” o rapaz deve ter como qualidades básicas nada mais nada menos que a empáfia de um pavão e a profundidade de um pires. Haverá maneira mais inteligente de mostrar a diferença entre inteligência e esperteza?


Notas
1. RODRIGUES Vitor J. Teoria Geral da Estupidez Humana. Lisboa: Horizonte, 1992, p. 150.

2. Id., ibid., p. 151.

3. MACHADO DE ASSIS. Teoria do Medalhão. In Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, vol. II, p. 291.

4. Id., ibid., p. 292.

5. Id., ibid., p. 292.

6. Id., ibid., p. 294.

7. Id., ibid., p. 294.

8. Id., ibid., p. 294.

9. Id., ibid., p. 295.

( © Mariotti, H., março, 2003 )

Tudo isto recordou-me um livrinho delicioso que li há já alguns anos e que é aqui mencionado. " Teoria Geral da Estupidez Humana" de Vitor J. Rodrigues.
Vou tornar a lê-lo e prometo mais desenvolvimentos acerca deste tema.





1 Coscuvilhices:

Enviar um comentário

<< Home