Conversa na Travessa

segunda-feira, dezembro 08, 2003

"O que e' que faz(es) na vida?" ou "O que queres ser quando fores grande?"

Estas sao das perguntas a que mais frequentemente temos de responder desde tenra idade. Sao tambem das perguntas que mais frequentemente utilizamos como desbloqueadores de conversa. E das que mais frequentemente teimamos em saber a resposta. E depois encaixamos as pessoas em prateleiras pre-rotuladas, pre-concebidas. A primeira impressao esta' feita e todos sabemos como e' dificil livrarmo-nos das primeiras impressoes. Sinceramente, quem e'que nunca se deixou levar por estes preconceitos laborais? Com duas letrinhas apenas se escreve a palavra Dr., que e' das palavras pequenas, daquelas que faz mais furor. Em Portugal, pelo menos. Seja Dr. medico, Dr. biologo, Dr. professor de educacao fisica ou Dr. de psicopedagogia curativa, o Dr. cai sempre bem, mas sobretudo nas profissoes mais conhecidas tradicionalmente. E' claro que um Eng., ou um Arq. proporcionam igualmente um acenar de admiracao e um "Sim, senhor, muito bem, muito bem!".

Quer queiramos quer nao, tendemos a rotular subconscientemente as pessoas de acordo com o que fazem na vida. Vamos fazer um teste, ok? Dou-vos uma pequena lista de profissoes e voces escrevem os primeiros 5 adjectivos que vos vierem 'a cabeca. Pode ser, por exemplo: medico, enfermeiro, engenheiro, arquitecto, estilista, pintor, advogado, gerente de loja, caixa num supermercado, paquete, bailarina exotica, contorcionista, palhaco, pastor, camionista, limpa-chamines, politico, gestor, professor, talhante, operario, leiteira. Para ja', vou-vos dizer, que, so' olhando para o monitor (milagres da tecnologia moderna), sei que 99,9% de voces esbocou um sorriso (nem que seja um sorriso interior), ao ler "bailarina exotica", "contorcionista", "palhaco", "pastor", "camionista", "limpa-chamines", "politico", "talhante", "leiteira". Tambem me parece que "operario" provocou alguns sorrisinhos. Fazem-se muitas vezes suposicoes em relacao 'a inteligencia de uma pessoa que trabalhe, por exemplo, num cabeleireiro, ou nas obras. Faz-se o mesmo a uma pessoa que seja, por exemplo, um professor catedratico (so' que na direccao contraria...). E nao interessa que a pessoa que trate dos cabelos de outrem esteja a escrever um ensaio sobre a obra de Wittgenstein, ou que o sr. catedratico tenha os skills sociais de uma meia rota. O preconceito fala geralmente mais forte.

Na nossa cultura, onde as pessoas sao tantas vezes definidas pela sua profissao/actividade, tenta-se muitas vezes "obscurecer" o que se faz com um excesso de verborreia ou expressoes subtis, para embelezar um bocado o que somos. Ja' nao ha paquetes, ha' "empregados de servicos externos". Muita gente trabalha na "industria hoteleira" ou "no comercio", um saco fundo onde cabem tantas actividades diferentes e reconhecidas como tendo diferente status. 'As vezes nem percebo o que me tentam dizer: "auxiliar de accao educativa", "empregado camarario responsavel pela manutencao da higiene publica", "artista", e por ai fora.

Vamos fazer outro teste? Voltem 'a lista de profissoes supra-mencionadas e facam "casalinhos". Isto e', que profissoes GERALMENTE se encontram associadas num casal (de namorados, ou marido e mulher), por exemplo, um(a) medico(a) pode-se casar ou acasalar com que tipo de profissional? (nao sei se me estou a explicar bem). Depois, num dia em que se encontrem com a vossa cara-metade, marido, mulher, ou o que seja, e que se sintam mais "torcidos", experimentem responder 'a pergunta clichet "entao, o que e' fazem?" da seguinte forma: "eu estou a fazer um doutoramento em fisica quantica em Harvard/Oxford/Cambridge e aqui o meu Ze' e' pastor"; ou "sou juiz e aqui a minha amiga e' uma bailarina exotica". Nao ha' melhor bloqueador de conversa. A serio, e' giro! Experimentem!

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