Conversa na Travessa

terça-feira, dezembro 30, 2003

olhó 2004

Desejos de um bom ano!


Vou ali dar um passito de dança
e já volto!

Bibis
A Tangerina

Na Rua da Judiaria...

... nº20 r/c Dto em Almada, vivi 15 anos da minha vida.
Recordo com saudades esta rua. Agora vou muitas vezes visitar o meu vizinho (mesmo vizinho de verdade, soube hoje através de troca de mails) na Rua da Judiaria.

A Blogosfera é uma pequena batata de meter no forno!

A Tangerina

Chichibio- Folhetim bloguiográfico, capítulo I

(...) Por mais que o pronto engenho, amorosas senhoras, muitas vezes empreste a quem fala palavras prestes e úteis e belas, segundo as circunstâncias, também a fortuna, por vezes ajuda os temerosos, lhes põe na lingua subitamente tais palavras, que de ânimo sossegado nunca saberiam encontrar: eis o que com este conto pretendo demonstrar.
Currado Ginafigliazzi, como cada uma de vós pode ter visto e ouvido, foi sempre cidadão notável da nossa cidade, liberal e magnifico, e mantendo continuamente vida de montaria, deleitando-se com cães e aves, deixando de lado por ora os seus feitos mais importantes. Tendo ele caçado com um seu falcão certo dia perto de Peretola um grou, achando-o gordo e tenro, mandou-o a um seu bom cozinheiro chamado Chichibio, que era veneziano; e com o mandá-lo deu-lhe por ordem que o amanhasse e assasse bem para a ceia, Chichibio, que era tão novo vão como parecia, preparou o grou, pô-lo ao lume e com solicitude começou a cozinhá-lo. Estando o grou já quase assado e largando um grandíssimo aroma, aconteceu que uma moça daqueles sítios, de seu nome Brunetta e de quem Chichibio estava fortemente enamorado, entrou na cozinha e sentindo o cheiro do grou e vendo-o pediu com amorosa insistência a Chichibio que lhe desse uma coxa.
Chichibio respondeu-lhe na sua voz cantante e disse:” De mim não a tereis, dona Brunetta, de mim não a tereis.”
Com o que dona Brunetta enfadada lhe disse: “ Por minha fé, se não ma dás, não terás de mim nunca coisa de teu aprazimento”.


Irá Chichibio ceder aos gulosos intentos de dona Brunetta? E o que seria que dona Brunetta lhe prometia em troca de tão temperada coxa? Não percam os próximos capítulos, que eu vou tentar fazer o mesmo.

segunda-feira, dezembro 29, 2003

Estou de volta!

Depois de ter estado aqui , durante estes dias, sinto a alma mais relaxada. Fria ( brrrrrrrr....), mas relaxada.
Os meninos tiveram um bom Natal?????

domingo, dezembro 28, 2003

Pêssega...

...ou o electroclash no seu melhor(?)

Fui ontem mesmo ver a menina Peaches. Gostei do que ouvi, no entanto saí de lá com a ideia de que "desculpa lá, mas faltava só mesmo aquele 'piqueno' pormenor".

Saí de lá muito dançada, mas com a sensação que o auge da Peache tinha estado um pouco longe!
(minha modesta opinião).

(O Lux continua a ser um excelente espaço acústico - obrigada pai por me teres ensinado a "ouvir" da melhor forma os concertos)

A Tangerina

sexta-feira, dezembro 26, 2003

bolas...

...acabaram-se as calorias!



A Tangerina

segunda-feira, dezembro 22, 2003

A minha árvore...

...ou a maneira mais doce de vos desejar um

FELIZ NATAL!




A Tangerina

domingo, dezembro 21, 2003

O microclíma da Ericeira...

..ou a forma mais simpática de passar uma noite diferente!
Gostei muito de toda a conjuntura e da companhia.
Muito Obrigada ao Luís e Magda pelo simpático convite.

A Tangerina

sábado, dezembro 20, 2003

Polaroid nº 6

Frente - Rua da Junqueira, Setembro de 2001
Após tempos distantes, eles ansiavam abraçar-se, timidamente ela retirou a sua lembrança e reservadamente diz que sentiu muito a sua falta. Ele sorri, e pede-lhe um abraço, o seu coração salta e no meio de um qualquer estacionamento de Lisboa dão um beijo que fica guardado. O local onde está guardado... talvez até já se tenham esquecido!


verso - Rua da Judiaria - Almada, 1988
Rosa Mota é medalha de ouro na Maratona dos jogos Olímpicos.
Eu meio a dormir meio acordada, lá ouvi o hino e todos estavam muito felizes com a vitória.

Não percebia muito do que se passava mas se a medalha era de ouro era porque era muito importante nessa noite não dormimos e fomos ver o nascer do sol à Fonte da Telha.

Nesse ano consegui ler um livro "das pessoas grandes" todo e, não tinha bonecos!


A Tangerina

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Liberdade



O passarinho
Lá na gaiola
Passava o dia
Sem alegria
Queria cantar
Queria voar
Mas só sabia
Piar, piar.
Até que um dia
A portinhola
Lá da gaiola
Ficou aberta
E o passarinho
Logo cantou
Abriu as asas
Voou, voou.

( Desconheço o autor)

quinta-feira, dezembro 18, 2003

Tou pegando onda com essa daí....



quarta-feira, dezembro 17, 2003

sem rótulo

Rodavas incessantemente nos lençóis.
Um sono solto invadia-te e com ele abrias e fechavas os olhos.
Olhava para tudo, feliz, aquele momento era mágico.
Um sono aquece-me o corpo, mas luto; quero permanecer neste encanto, doce e ternurento, que é apenas olhar-te.
Olho para ti, imagino como seria não deixar o teu calor por um só instante, onde os sonhos de toda uma vida, podem ser colocados e tocados.
Sinto-te.
O quente do teu corpo e o suspirar, quero que fiques aqui, perto há distancia de um abraço sempre.
Soltam-se mais beijos, o corpo salta: "beija-me, toca-me, lambe-me" - parece-me dizer.Não somos nada nem ninguém, apenas regimos por dele, um corpo, que se agita de forma subtuosa e magnífica.
Não partas!
Deixa-me admirar-te só mais um pouco. Sentir a suavidade do teu corpo, de tocar o aroma doce do prazer.
Espera!
Deixa-te estar, quero sentir a penumbra do pazer!...
Olha! Queres fazer amor comigo?
Acordas por instantes, com a cara enrolada da almofada dizes-me que queres continuar ali, rebolas e e navegas num mar de lençóis e, abraças-me.
Sorri!
Um calor cai sobre mim, o cansaço vence e adormeço, no mesmo sonho! Onde estou? Tudo é verdade! Estou aqui enrolada no quente do teu coração.


A Tangerina


Ela: Vá lá Matias...não sejas assim...eu não sabia que aquele poste era do Jerónimo...

Ele: É sempre a mesma história...tu nunca sabes nada...não ouves o que eu digo...é o que é. Talvez ainda seja muito cedo para partilhar postes. É melhor dar um tempo.

Ela: Como queiras...acho isso uma asneira, mas...tu é que sabes. Deixo aqui as coisa que me emprestaste. Adeus!

terça-feira, dezembro 16, 2003

Preguiça



Esta época do ano deve ser, a par dos meses de Julho e Agosto, a menos produtiva de todas. O espírito festivo, por menos que se goste de Natal, acaba por ser contagiante. Tudo o que há para fazer acaba por ser intregado numa engrenagem que se m o v e m u i t o d e v a g a r i n h o e da qual não podemos escapar, por mais que queiramos. É a preguiça crónica. É a preguiça Natalícia.
Olhem. E só por causa das coisas, não escrevo mais nada.

segunda-feira, dezembro 15, 2003

ai estes três....

No passado dia 13 o Porto teve outra animação. A tangerina, a ba-ta-ta(menina LINDA em TODOS os aspectos), o Green (o menino dos olhos LINDOS - meninas de Espinho e arredores: andam cegas?!?), o o Sr. Vertigem (palavras para quê?).

Oh pá... tão naiçe, tão fixolas...


Bibis a todos!
A Tangerina

NOTA: o Sal-Grosso também lá estava (foi ele quem tirou a foto) mas como não pertence ao gang MEC... ficou de fora (eu depois compenso-o em géneros)

Nota 2: sr. vertigem... os seus pedidos são ordens!

sexta-feira, dezembro 12, 2003

Estou-vos a ver....



Por favor, portem-se bem!!

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Don't trust happy people!



Uns finalistas de um curso de belas artes tiveram a tarefa de fazer uma campanha publicitaria, nao interessava ao que, como resumo do que tinham aprendido. Uma aprendiz de artista arranjou este slogan, "Don't trust happy people", e nao e' que eu fiquei a pensar nele?

Vai dai, vou 'a procura de mais pessoas que desconfiem da felicidade de outrem. Encontrei este senhor. Senhoras e senhores, eis Denis Leary, the most pissed-off man in the universe!

Denis Leary - "No Cure for Cancer"

"(...) Happy people suck. They are annoying. They're just too goddamn happy. (Smiling and waving) "Have a nice day!" Have a coronary embolism, you empty little simp. Anyone who is that happy must be an idiot, because if you can read and there's a newspaper stand near your house -- you have nothing to be happy about. I don't trust happy people. I think anyone with a big smile on their face during daylight should be timed with a radar gun -- and if the smile lasts longer than three seconds, give them a urine test. (Gazing into glass of urine) "Ahh. . . just as we thought. You are a complete and utter moron. We're going to have to shoot you." BLAM!
Why aren't the happy people forced into therapy? They're the ones in the minority. They're the ones screwing it up for the rest of us. Let's put them into support groups. (Smiling) "My name is Bob, and I can't stop smiling. I love life. I can't wait to get up in the morning and greet the new day. I have a tight, firm regular bowel movement every day at 10 A.M. I haven't used toilet paper since I was seven. Please help me."
Maybe this happiness and inner child and self-analysis and disappointment and high expectation business is all a matter of how you look at it. Roseanne Barr has a dream where she sees her father coming at her with lust on his lips and malice in his eyes. I see my father coming at me with a shovel saying, "It snowed last night. Dig out the car.
(...)"

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Esta miúda...

Bairro do Amor
No bairro do amor a vida é um carrossel
Onde há sempre lugar para mais alguém
O bairro do amor foi feito a lápis de côr
Por gente que sofreu por não ter ninguém

No bairro do amor o tempo morre devagar
Num cachimbo a rodar de mão em mão
No bairro do amor há quem pergunte a sorrir:
Será que ainda cá estamos no fim do Verão?

Eh, pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair-me um pouco
Eu sei que tu compreendes bem

No bairro do amor a vida corre sempre igual
De café em café, de bar em bar
No bairro do amor o Sol parece maior
E há ondas de ternura em cada olhar

O bairro do amor é uma zona marginal
Onde não há hotéis nem hospitais
No bairro do amor cada um tem que tratar
Das suas nódoas negras sentimentais

Eh, pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair-me um pouco
Eu sei que tu compreendes bem


A Tangerina

Bela festa a de ontem!!!!

Estava um dia chuvoso! Horrível! Vínhamos nós, as comadres, de mais uma sessão de espiritismo em casa de Madame Lola, na qual tentámos contactar com o falecido Carlos Gardel. A coisa não resultou lá muito bem e fora um tango roufenho vindo dos antípodas do Além ( que mais parecia de dentro do louceiro de Madame Lola) ficámos um pouco desapontadas com o Sr. Gardel que não deu sequer um ar da sua graça. Adiante. Vínhamos nós comentando o mau feitio desta entidade, e eis quando damos de caras com este nosso vizinho.
Conversa puxa conversa. O mau tempo, as condutas de escoamento entupidas, a gritaria em casa dos Souselas,...e o nosso amigo resolve convidar-nos para jantar. Aceitamos de bom grado e lá fomos nós.
Juntos, na cozinha, petiscamos uns enquanto preparávamos um belíssimo . Estava divino e muito bem "regado" com . A sobremesa foi especialmente saborosa. Uma bela tábua de e estava o repasto terminado. Boa conversa, boa companhia, ali resolvemos as grandes questões da Humanidade.
pena que já não nos lembremos da maior parte das soluções!
Obrigada amigo por uma noite excelente!!

terça-feira, dezembro 09, 2003

A Tangerina posta...

...Numa Travessa perto de si!




(é só a imaginação e o tempo ajudarem...)

A Tangerina

segunda-feira, dezembro 08, 2003

"O que e' que faz(es) na vida?" ou "O que queres ser quando fores grande?"

Estas sao das perguntas a que mais frequentemente temos de responder desde tenra idade. Sao tambem das perguntas que mais frequentemente utilizamos como desbloqueadores de conversa. E das que mais frequentemente teimamos em saber a resposta. E depois encaixamos as pessoas em prateleiras pre-rotuladas, pre-concebidas. A primeira impressao esta' feita e todos sabemos como e' dificil livrarmo-nos das primeiras impressoes. Sinceramente, quem e'que nunca se deixou levar por estes preconceitos laborais? Com duas letrinhas apenas se escreve a palavra Dr., que e' das palavras pequenas, daquelas que faz mais furor. Em Portugal, pelo menos. Seja Dr. medico, Dr. biologo, Dr. professor de educacao fisica ou Dr. de psicopedagogia curativa, o Dr. cai sempre bem, mas sobretudo nas profissoes mais conhecidas tradicionalmente. E' claro que um Eng., ou um Arq. proporcionam igualmente um acenar de admiracao e um "Sim, senhor, muito bem, muito bem!".

Quer queiramos quer nao, tendemos a rotular subconscientemente as pessoas de acordo com o que fazem na vida. Vamos fazer um teste, ok? Dou-vos uma pequena lista de profissoes e voces escrevem os primeiros 5 adjectivos que vos vierem 'a cabeca. Pode ser, por exemplo: medico, enfermeiro, engenheiro, arquitecto, estilista, pintor, advogado, gerente de loja, caixa num supermercado, paquete, bailarina exotica, contorcionista, palhaco, pastor, camionista, limpa-chamines, politico, gestor, professor, talhante, operario, leiteira. Para ja', vou-vos dizer, que, so' olhando para o monitor (milagres da tecnologia moderna), sei que 99,9% de voces esbocou um sorriso (nem que seja um sorriso interior), ao ler "bailarina exotica", "contorcionista", "palhaco", "pastor", "camionista", "limpa-chamines", "politico", "talhante", "leiteira". Tambem me parece que "operario" provocou alguns sorrisinhos. Fazem-se muitas vezes suposicoes em relacao 'a inteligencia de uma pessoa que trabalhe, por exemplo, num cabeleireiro, ou nas obras. Faz-se o mesmo a uma pessoa que seja, por exemplo, um professor catedratico (so' que na direccao contraria...). E nao interessa que a pessoa que trate dos cabelos de outrem esteja a escrever um ensaio sobre a obra de Wittgenstein, ou que o sr. catedratico tenha os skills sociais de uma meia rota. O preconceito fala geralmente mais forte.

Na nossa cultura, onde as pessoas sao tantas vezes definidas pela sua profissao/actividade, tenta-se muitas vezes "obscurecer" o que se faz com um excesso de verborreia ou expressoes subtis, para embelezar um bocado o que somos. Ja' nao ha paquetes, ha' "empregados de servicos externos". Muita gente trabalha na "industria hoteleira" ou "no comercio", um saco fundo onde cabem tantas actividades diferentes e reconhecidas como tendo diferente status. 'As vezes nem percebo o que me tentam dizer: "auxiliar de accao educativa", "empregado camarario responsavel pela manutencao da higiene publica", "artista", e por ai fora.

Vamos fazer outro teste? Voltem 'a lista de profissoes supra-mencionadas e facam "casalinhos". Isto e', que profissoes GERALMENTE se encontram associadas num casal (de namorados, ou marido e mulher), por exemplo, um(a) medico(a) pode-se casar ou acasalar com que tipo de profissional? (nao sei se me estou a explicar bem). Depois, num dia em que se encontrem com a vossa cara-metade, marido, mulher, ou o que seja, e que se sintam mais "torcidos", experimentem responder 'a pergunta clichet "entao, o que e' fazem?" da seguinte forma: "eu estou a fazer um doutoramento em fisica quantica em Harvard/Oxford/Cambridge e aqui o meu Ze' e' pastor"; ou "sou juiz e aqui a minha amiga e' uma bailarina exotica". Nao ha' melhor bloqueador de conversa. A serio, e' giro! Experimentem!

sexta-feira, dezembro 05, 2003

QUANTO MAIS ESPERTO, MENOS INTELIGENTE

(Mas a recíproca não é verdadeira)

Na televisão, vejo e ouço a arenga de um político. Enquanto ele fala e gesticula, percebo sem surpresa que esse homem, por muitos considerado inteligentíssimo, continua obtuso como sempre foi — e agora talvez até mais. O episódio também me faz lembrar de que a diferença entre inteligência e esperteza não é tão amplamente percebida e entendida como deveria. Eis a razão das considerações que se seguem.

A relação entre a inteligência e a esperteza está ligada ao sistema de pensamento predominante em nossa cultura. Como sabemos, a maioria das pessoas tende a pensar em termos simplistas e busca a satisfação imediata. Esse imediatismo traduz o raciocínio de causalidade simples: se A vem com certa freqüência antes de B, A é a causa, B o efeito e ponto final. O processo se esgota aí. Esse padrão está ligado a outro — o raciocínio binário —, segundo o qual a relação entre A e B é unidirecional e excludente: A é igual a A e diferente de B, sem outra hipótese. Tudo muito simples e muito direto, portanto.

O indivíduo esperto percebe com nitidez esse nosso condicionamento, e não ignora que ele próprio também está submetido a tal modo de pensar. Sua esperteza consiste em intuir o quanto a prevalência desse modelo (que é necessário em certas circunstâncias, mas não é o único) é intelectualmente limitante e o quanto pode ser utilizado para manipular as pessoas. O esperto vê a si próprio como alguém que superou essa limitação e a respectiva susceptibilidade à manipulação (o que nem sempre se confirma na prática, como logo veremos). De todo modo, com base nessa convicção ele usa as limitações alheias em beneficio próprio.

A mentalidade binária fornece a base para uma de nossas crenças mais arraigadas — a de que os seres humanos se dividem em dominadores e dominados. Se assim é, aqueles são mais inteligentes do que estes, pois os controlam, obtêm sua obediência e deles extraem dinheiro que, como se sabe, para muitos é a causa de todos os efeitos, os quais por isso mesmo a ela devem ser sempre reduzidos.

Nessa ordem de idéias, o indivíduo esperto imagina-se poderosamente maquiavélico. Está convencido de que O Príncipe é uma espécie de texto sagrado do comportamento social. Não o comove nem um pouco o fato de que esse livro de Maquiavel sob muitos aspectos é uma ode ao jogo de soma zero (para que eu vença é necessário que você seja derrotado) e, por outro lado, uma elegia à solidariedade.

Pois essa talvez seja a principal limitação do esperto: pensar que não existe ninguém mais esperto do que ele — o que o condena a dificilmente contar com a ajuda da qual mais dia menos dia ele pode vir a precisar como decorrência de sua própria astúcia.

Vamos ao dicionário. “Esperteza: acuidade ou agudeza de espírito. Habilidade maliciosa. Inteligência superficial. Habilidade ingênua que facilmente se descobre”. Quando vê a possibilidade de obter alguma vantagem, o esperto diz às pessoas o que elas querem ouvir. Ao fazer isso, porém, ele cai em sua própria armadilha, pois as pessoas por sua vez também lhe dizem o que ele quer ouvir. Essa circunstância o põe numa posição que se continuada tende a embotar-lhe a inteligência.

É bem disso que se trata: o esperto se acha inteligente, o que o impede de desenvolver sua inteligência. Quanto mais inteligente ele se imagina, mais se deixa envolver por sua esperteza. Esse processo pode seguir num crescendo, que muitas vezes resulta na transformação da esperteza em obtusidade ou, o que é pior, em estupidez, no entender de alguns.

É próprio do esperto o seguinte raciocínio: se a utilidade “prática” (que para ele é quase sempre econômica) de uma idéia ou coisa não for imediatamente perceptível, é porque não existe. E assim essa idéia ou coisa entra para o rol dos trastes inúteis.

Quando levada a extremos, essa atitude faz com que a esperteza chegue à obtusidade, ultrapasse-a e alcance a estupidez. É a esse fenômeno que se dirige a crítica de Vítor J. Rodrigues, quando diz que “o dinheiro é um fim e deve ser atingido por meio dos homens, adequados instrumentos financeiros uns dos outros”1

O que Rodrigues chama de “estupidez financeira” compõe-se de pelo menos três categorias: a) estupidez financeira terminal, na qual o dinheiro é usado para tornar estúpidos os que o recebem. A corrupção, o suborno e o aliciamento são três exemplos; b) estupidez financeira de manutenção, em que a condição anterior se torna instituída, como ocorre nos governos corruptos, máfias e assemelhados; c) estupidez financeira metodológica ou consumista. Por meio dela, o dinheiro é utilizado para estupidificar de modo crescente os que o utilizam: “Os que têm dinheiro são meios para tenhamos mais dinheiro”.2

Mas não sejamos tão meticulosos. Voltemos ao campo da esperteza e lembremos que ela e a inteligência não são mutuamente excludentes, como poderiam supor os mais espertos. Ou seja: ninguém é só inteligente nem só esperto. O que há é uma combinação, na qual uma ou outra condição predomina em graus diferentes e em momentos diversos. É uma questão de proporções, portanto. Inteligência e esperteza estão em constante diálogo e as pessoas em cujas mentes esse diálogo acontece estão, por sua vez, em permanente conversa com o ambiente e com outras pessoas.

A esperteza é mais operacional e a inteligência mais estratégica. Logo, as duas são necessárias. A inteligência desenvolve a esperteza, mas o contrário só é verdadeiro até certo ponto. Desse ponto em diante, quanto mais astuto for um indivíduo menos inteligente ele será, pois a astúcia potencializa o ego e torna utilitários os relacionamentos interpessoais. Já a inteligência atenua o egoísmo e estimula as relações. E não poderia ser de outro modo, pois, como já vimos, a esperteza se apóia na causalidade imediata: uma causa, um efeito. A inteligência, porém, nos faz perceber que muitas vezes o efeito pode retroagir sobre a causa. Forma-se então uma circularidade, que se liga a outras circularidades e compõe uma rede, o que faz com que o pensamento assuma uma feição abrangente.

É por isso que enquanto o astuto se supõe inteligente e alardeia essa suposta virtude, o indivíduo inteligente sabe que há situações em que é necessário ser astuto — mas sabe também que isso tem um limite: a astúcia deve ser usada com moderação, com o mesmo comedimento que nos leva a não alardeá-la. É preciso dosá-la, pois se a inteligência desenvolve a ética a esperteza pode nos fazer ignorá-la.

Não fosse isso suficiente, a inteligência nos faz buscar o equilíbrio entre a razão e a emoção, enquanto que a esperteza tende a nos fazer pensar que a razão resolve tudo sozinha, isto é, a tentar reduzir a racionalidade ao racionalismo. Assim, a inteligência pode ser definida como a habilidade de não permitirmos que a esperteza nos suba à cabeça e atrofie nossa capacidade de perceber e entender que viver é viver em relação, fazer parcerias e com isso buscar a justiça social.

Confirmando o que consta dos dicionários (a esperteza é uma habilidade ingênua que logo se descobre), o esperto pode ser fácil de enganar. Como ocorre com o vaidoso (esperteza e vaidade freqüentemente andam juntas), muitas vezes basta louvar-lhe a sagacidade (ou alimentar-lhe a fatuidade, conforme o caso) para torná-lo dócil e manipulável — desde que a manipulação continue baseada nessa louvação.

No limite, a esperteza tende a anular a si própria e se transforma num primitivismo mental. Em não poucos casos esse é o ponto de partida para o total desprezo pelo outro — a psicopatia. Em muitos psicopatas famosos, o que se convencionou chamar de “inteligência brilhante” é na verdade o auge do delírio sociopático.

O dito que propõe que o mundo é dos espertos é revelador do quanto a esperteza pode se render à obtusidade. Nesse momento, ela põe à mostra o quanto é limitante e limitada. Esperteza produz esperteza, a qual por sua vez gera um estado de coisas hobbesiano, pleno de medo, paranóia e desconfiança. A situação do mundo atual, no qual o chamado progresso não impediu a proliferação da exclusão social, terror, violência, fome e situações semelhantes, é uma das melhores demonstrações das razões pelas quais esperteza é diferente de inteligência.

Um convite ao leitor: faça uma lista de pessoas que você sempre achou que fossem muito inteligentes. Reflita e verá que em muitas delas a esperteza predomina sobre a inteligência. Isto é, são indivíduos apenas espertos (e alguns francamente obtusos). Será uma conclusão quase natural, mas para que ela aconteça é necessário que você: a) se inclua na lista; b) seja mais inteligente do que esperto.

Como foi dito antes, confundir inteligência com esperteza é um engano corriqueiro mas — também foi mencionado — essa é a grande limitação do esperto. Ele percebe que existe um modo de pensar diferente do seu, mas o classifica como “cultura”, ou então como “poesia” ou “literatura”, isto é, coisas “não práticas”, que não “agregam valor”. É evidente que tal classificação é uma demonstração de sua pouca inteligência, pois é precisamente na literatura que estão alguns dos melhores exemplos da diferença entre uma coisa e outra.

Vamos a um deles. Trata-se do conto de Machado de Assis, Teoria do Medalhão, publicado em 1882 no livro Papéis Avulsos. Recordemos a história. Depois de um jantar comemorativo de seus 21 anos, um rapaz conversa com o seu pai que aproveita a ocasião para orientá-lo sobre a “vida prática”. Para tanto diz-lhe algumas “coisas importantes”, cujo objetivo é fazer com que o jovem saia da “obscuridade comum” e se torne um medalhão. Eis os principais pontos da receita do pai machadiano:

Idéias.
Melhor não tê-las.

Livrarias.
Nunca entrar nelas em busca de livros.

Linguagem.
Usar ao máximo “as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos”, pois elas “têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil”.3

Memória.
Decorar “toda a recente terminologia científica”.4
Visibilidade.

Usar ao máximo a propaganda: “Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo”.5

Política.
“Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma idéia especial a esses vocábulos.”6

Imaginação.
“Nenhuma imaginação?”
“Nenhuma; antes fazer correr o boato de que um tal dom é ínfimo”.7

Filosofia.
“Nenhuma filosofia?”
“Entendamo-nos: no papel e na língua, alguma, na realidade nada. (...) Proibo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. (...) Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.).”8

E por aí vai, até que o pai arremata dizendo que “guardadas as proporções, a conversa desta noite vale O Príncipe de Machiavelli”.9 Ninguém menos que Maquiavel, claro. Sempre ele. Ou então Hobbes. Em suma, o que o personagem de Machado propõe ao filho é que para “vencer na vida” o rapaz deve ter como qualidades básicas nada mais nada menos que a empáfia de um pavão e a profundidade de um pires. Haverá maneira mais inteligente de mostrar a diferença entre inteligência e esperteza?


Notas
1. RODRIGUES Vitor J. Teoria Geral da Estupidez Humana. Lisboa: Horizonte, 1992, p. 150.

2. Id., ibid., p. 151.

3. MACHADO DE ASSIS. Teoria do Medalhão. In Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, vol. II, p. 291.

4. Id., ibid., p. 292.

5. Id., ibid., p. 292.

6. Id., ibid., p. 294.

7. Id., ibid., p. 294.

8. Id., ibid., p. 294.

9. Id., ibid., p. 295.

( © Mariotti, H., março, 2003 )

Tudo isto recordou-me um livrinho delicioso que li há já alguns anos e que é aqui mencionado. " Teoria Geral da Estupidez Humana" de Vitor J. Rodrigues.
Vou tornar a lê-lo e prometo mais desenvolvimentos acerca deste tema.





"História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar"

No porto de Hamburgo, era uma vez um gato grande, preto e gordo, Zorbas, que se viu escolhido por Kengah, uma moribunda gaivota, apanhada por uma maré negra de petróleo, para tomar conta do ovo que acabara de pôr. Do "ovito branco com pintinhas azuis', nasce, ao fim de vinte terríveis dias de choco para o gato, uma gaivotinha, que rapidamente o chama de 'mamã'. Ditosa, rodeada do carinho dos gatos do porto, cresce depressa, tornando-se numa "esbelta gaivota de sedosas penas cor de prata'. Com a ajuda indispensável dos seus amigos Secretário, Sabetudo, Barlavento e Colonello, e de uma enciclopédia, o gato Zorbas consegue cumprir as suas promessas de cuidar da avezinha e ... ensiná-la a voar! Tarefa tanto mais difícil porquanto, como todos sabemos, os gatos não voam, e, para além disso, a jovem gaivota teimosamente insistia não querer ser um pássaro, mas sim uma gata.
Um carinhoso conto do chileno Luís Sepúlveda.Recomendo!

quinta-feira, dezembro 04, 2003

All souls


All Souls College, Oxford

"Todas as Almas" (Publicacoes Dom Quixote, embora a traducao nao seja uma obra prima), de Javier Marias, e' o relato, na primeira pessoa, de um professor universitario espanhol, que passa uma temporada a leccionar num dos colleges da Universidade de Oxford. Falso relato autobiografico ou diario involuntario, trata-se da narracao de pequenos acontecimentos do dia-a-dia da comunidade academica de Oxford e das reflexoes que os mesmos desencadeiam. Tanto o college (All Souls), como as almas que o povoam (todas as almas) sao susceptiveis de analise (ou de "desconstrucao", na origem grega do termo). E soa-me tao a familiar...

"Quando uma pessoa esta' so', quando uma pessoa vive so' e ainda por cima no estrangeiro, presta uma enorme atencao ao caixote do lixo, porque pode acabar por ser a unica coisa com a qual mantem uma relacao constante, ou, o que e' ainda mais, uma relacao de continuidade. Cada saco preto de plastico - novo, brilhante, liso, por estrear - produz um efeito de limpeza absoluta e de possibilidades infinitas." (in "Todas as Almas")

Oh pá! Comeram-me a posta!!!!

Dentro de momentos vai ser servida uma bela posta....


terça-feira, dezembro 02, 2003

"Nao ha' futuro no terrorismo."


E' este um dos misteriosos slogans publicitarios que, desde ha' pelo menos um mes, povoam os principais titulos da imprensa europeia, desde Portugal 'a Noruega, passando por Espanha, Franca, Italia, etc. Sao anuncios assinados por uma tal de European Security Advocacy Group (ESAG), e o aparente misterio sobre os verdadeiros autores da campanha tem suscitado as mais diversas discussoes na Internet (e blogosfera, em particular). Em muitos foruns online le-se "O que e' que esconde a ESAG?" Entre alguns apaixonados pelas teorias da conspiracao, ha' quem diga que a CIA esta' por detras disto.
Na verdade, a ESAG e' uma fundacao dirigida (e fundada) por Norman Vale, um gestor americano que, durante 11 anos, foi director geral da International Advertising Association. O Sr. Vale diz que decidiu usar a sua experiencia profissional em recolher fundos para fazer alguma coisa contra o terrorismo. Mas pelo menos uma duvida se poe: por que e' que o americano Mr. Vale dedicou a sua fundacao 'a seguranca europeia? Eu nao sou de intrigas, nem de boatos, mas la' que e' estranho, e' estranho!

Cuidar hoje para que frutifique...



Como já devem ter reparado, seja pelo correio, seja pessoalmente, os pedidos de ajuda multiplicam-se. Desde Associações a Misericórdias, todos pedem um bocadinho de nós. E penso que ninguém ficará insensível a estes apelos e que, mesmo pouco, todos dão o que podem. Mas, e falo por mim, o número de peditórios, vendas de caridade, bancos alimentares e outros é tão grande (infelizmente) nesta altura do ano que há que ser selectivo ou o orçamento não chegaria para atender a tanto. Por isso, por esta altura, optamos por dar o pouco que podemos a algumas associações ( as mesmas, todos os anos). Evidentemente que continuamos a ser abordados, mas fora uma ou outra excepção, temos que recusar os pedidos que fazem. E às vezes é neste ponto que tenho uma critica a fazer ás pessoas louvavelmente se prestam a essa tarefa dificil que é a de angariar fundos. Por norma são todas pessoas muito simpáticas que nos abordam. Mas alguns, quando ouvem a recusa, olham para nós como se fossemos uma especie de Mr. Scrooge. Esses nem são os mais dificeis de lidar, ate porque penso não ter obrigação de explicar porque motivo não posso dar e facilmente vou à minha vida com aqueles "olhos" cravados nas costas. O pior género é o " inquisitório insistente". Os que perguntam porquê, os que pretendem entabular conversa, dar-nos a volta e em última instância, chegam mesmo ao contacto físico, prendendo-nos o braço, evitando que vamos embora. Esses são uma chatice, são uma especie de "cobrador de fraque" que chamam a atenção sobre nós, pretendendo que todos os outros se apercebam que nós não contribuimos para a causa, esperando que com a vergonha, cedamos aos seus intentos.
Esta abordagem se por vezes até resulta, não angaria muitas simpatias para a causa e a mim, revolta-me, porque se há coisa que eu mais odeio é que tentem obrigar-me a fazer coisas.
Estas atitudes são excepções e é como em tudo. Há maus profissionais em todas as profissões. De qualquer forma, apeteceu-me contar isto, porque infelizmente, fui testemunha de situações dessas e até de alguma má educação, por parte de angariadores da Cruz Vermelha Portuguesa na Mealhada e fiquei triste por pensar que a instituição que é merece todo o respeito e profissionalismo e não estar sujeita a um certo enxovalhamento por parte de pessoas com uma formação um pouco retorcida a nível de solidariedade.

segunda-feira, dezembro 01, 2003

Isto ja' nao ha' agentes secretos como antigamente!



Pois parece que os agentes secretos americanos nao sabem linguas orientais. Para eles Arabe e' Chines, e ha' mesmo quem se pergunte como e' que tem estado a ser gasto o dinheiro que tinha sido investido nos cursinhos de linguas orientais para os agentes da CIA. So' coisas que me ralam...Nos EUA, um parlamentar republicano pos em causa os servicos secretos dirigidos por George Tenet. Disse qualquer coisa como: "Voces sao pessimos em linguas estrangeiras. Vao estudar, malandros!"
O James Bond nao era licenciado em linguas orientais?